Famílias assentadas em Gália produzem e comercializam alimentos agroecológicos

 Publicado por Rafel Iamonti    30 de outubro de 2019.

“- Mas como se sabe se a terra é bem tratada?

Aí Percílio se meteu na conversa:

– Muito simples, planta forte não tem peste nem praga e medra bem. Em terra maltratada, as plantas são pesteadas e atacadas por insetos. Quanto mais veneno se tem de pulverizar nas lavouras, é sinal que tanto mais doente está a terra, e tanto mais fracas são as plantas. A terra doentia e fraca pode formar gente doentia e fraca.

Zequinha franziu a testa e pensou intensamente.

Finalmente, um sorriso brilhou em seu rostinho.

– Então, não é por causa da terra que temos que tratá-la bem, mas por causa de nós, mesmos?

– Exato – disse a terra – Eu, as plantas, os animais, vocês todos dependemos um do outro. Você pode me estragar, mas eu lhes estrago também!”

(Trecho do conto “Zequinha do Jegue”, presente no livro “A convenção dos ventos: agroecologia em contos”, de Ana Primavesi)

Assentamento Luiz Beltrame em Gália (Foto: Lorenzo Cunha)

Partindo dos princípios da agroecologia, produtores rurais do assentamento Luiz Beltrame, em Gália, comercializam alimentos sem venenos na região de Marília. Utilizando sistemas agroflorestais, onze famílias que fazem parte do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) produzem e distribuem seus produtos através de feiras e cestas agroecológicas.

A produção no assentamento oriundo da reforma agrária é orgânica, mas também visa o convívio com a natureza, uma das concepções agroecológicas. “Começamos a ver a importância de cuidar da natureza em si para poder estar em equilíbrio, tirando dela mas recebendo também. No sistema orgânico convencional a gente mais tira do que coloca, na agroecologia a gente equilibra, convivendo com os dois”, conta Thiago Francischini, assentado há sete anos.

Produtores rurais se conectam com a terra através da agroecologia (Reprodução/Internet)

A agroecologia propõe a utilização de técnicas que agridem menos os ecossistemas presentes na terra. Combinadas ao conhecimento científico moderno, são analisados os hábitos e necessidades da fauna local, assim como o solo e as águas. A produção é mais diversificada pois segue a lógica alimentícia da família que produz, permitindo que o solo agregue cada vez mais nutrientes. Isso permite uma grande variedade de produtos comercializados. Entre os alimentos distribuídos estão: alface, almeirão, banana, jiló, couve, maxixe, rabanete, diferentes variedades de pimentas, batata-doce, mandioca, tomate e chicória.

Francischini adotou o método produtivo em 2015 e comercializa alimentos livres de adubos químicos e defensivos agrícolas há dois anos. O produtor relata que no início a produção parecia inviável, já que a transição para o modelo de produção agroecológico é lenta. Segundo o assentado, é preciso realizar um resgate da terra, utilizando matéria orgânica retirada da capinação fazendo uma cobertura do solo.

“Fazer com que a matéria orgânica seja aproveitada pela planta demora, mas antes tarde do que nunca, essa é a consciência principal. Se essa terra foi trabalhada de forma errada por tantos anos, porque não mudar agora, isso que faz a diferença.”

Trabalhador cobre o canteiro com troncos e folhas de bananeiras (Reprodução/Internet)

O modelo agroecológico busca não interferir nos micro-organismos que vão auxiliar no crescimento das plantas e na recuperação do solo degradado. Dessa maneira, as hortaliças e leguminosas produzidas no assentamento interagem com o que seria considerado mato na agricultura convencional.

“Antes matava e deixava tudo limpo para plantar. Ai nesse projeto a gente planta primeiro, vem os matos espontâneos para depois fazer a forração, trabalhando cobrindo o solo”, relata Francischini. “O orgânico convencional sugava muito da terra e acabava em desequilíbrio. Mesmo utilizando todos os processos para a produção de orgânico a terra continuava em desequilíbrio. Na agrofloresta é o contrário a própria natureza corrige tudo o que tem.”


Sem a utilização de adubos químicos e agrotóxicos, os trabalhadores assentados notam uma grande mudança na segurança do trabalho nas lavouras. “Muda totalmente. Primeiro porque trago a saúde para a minha família, para mim e para o próximo que estou comercializando, de consciência limpa, alma limpa e corpo limpo”, afirma Francischini.

Rafel Iamonti
 
Repórter e estudante de Relações Internacionais
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