Faixa a Faixa: Recomeçar

 Publicado por Filipe Touca    13 de novembro de 2019.

Após os lançamentos dos discos, ‘Melhor do Que Parece’ (O Terno) e ‘Recomeçar’ (solo), ele deixou de ser apenas o filho do genioso compositor Maurício Pereira, mas cravou seu nome na música brasileira.

Seu primeiro disco solo, ‘Recomeçar’ (2017), foi considerado um dos principais álbuns brasileiros lançado daquele ano. Com letras completamente profundas sobre os sentimentos humanos, sobretudo de um processo de recomeçar em meio a tragédia. E pra acompanhar toda essa intensidade, um conjunto de arranjos que levam você exatamente a sentir aquilo que é proposta em cada música, e o mais incrível de tudo isso: todas as letras e arranjos foram feitos por ele, Tim Bernardes.

De fato, seu álbum pode-se ser considerado um álbum-conceito, naqueles mesmo termos utilizados pelas bandas de rock dos anos 70. As letras, as melodias, os arranjos, tudo se encaixa perfeitamente, faixa a faixa, lhe dando a sensação de que de certa forma, o disco todo é uma faixa só, ainda mais com o fato da música de abertura e de encerramento do disco, serem a mesma faixa. ‘Recomeçar’, é uma verdadeira materialização, de um dos processos sentimentais mais intensos da vida humana.

‘Recomeçar’ foi lançado em vinil pelo selo Noize (Foto: Reprodução Internet)

Faixa a Faixa:

Abertura (Recomeçar): Com um conjunto de arranjos extremamente profundos, por hora leves, e por hora pesados, a primeira faixa instrumental do disco, como o próprio nome diz, é uma abertura de tudo aquilo que está por vir no disco, no popular: ‘preparando o terreno’. Além do mais as linhas do piado articulado com os outros instrumentos faz lembrar as linhas do discos mineiros da década de 70.

Talvez: A primeira faixa com letra do disco, parece ser os primeiros rascunhos da problemática, ou melhor, do conceito em que Tim quer abordar ao longo do disco. Numa relação até um pouco ainda confusa, passando uma intensidade de ter sido pensada logo em seguida a um determinado acontecimento. Os arranjos leves mais quebrados da música, dão a evidência desejada para os momentos de intensidade da letra.

Quis Mudar: Com um arranjo mais simples, praticamente pautado em um único violão, a faixa passa a sensação de que toda a confusão presente na canção anterior ter passado. Uma melodia mais linear e uma letra de convicções, conduzem a um sentimento de convicções não só pautadas nos acontecimentos passados mas também em seus próximos passos.

Tim é uma figura crescente no contexto da música brasileira (Foto: Reprodução Internet)

Tanto Faz: A faixa destoa um pouco mas ao mesmo tempo não está distante do conceito trabalhado no disco. Por mais que o disco trabalhe com o recomeçar sentimental do indivíduo, a faixa apresenta um outro problema presente na maioria dos jovens da atualidade, que muitas vezes assombra tão forte quanto os sentimentos amorosos, a desilusão com a realidade política do país. Vale a pena lembrar, que o disco é lançado no ao longo do último processo eleitoral brasileiro.

Ela Não Vai Mais Voltar: Apresentando um dos elementos essenciais do conceito do disco, a faixa mais curta do disco, não é curta atoa. As letras e os arranjos buscam ser objetivos e pesados, basicamente transportando o ouvinte a sensação do compositor naquele momento, o sentimento de que a ‘ficha caiu’, e que de fato tudo aquilo estava acontecendo.

Pouco a Pouco: Não é atoa que a faixa mais longa do disco venha em seguida da faixa mais curta, parece que isso foi pensado propositalmente, afinal de contas depois de cair em si do fato, o indivíduo necessita refletir sobre aquilo, e é basicamente essa reflexão que representa esta cação dentro do conceito, e como na maioria dos fatos da vida, a conclusão é a mesma: “Pouco a pouco eu vou me conhecer melhor”. Os arranjos da música novamente são extremamente pensados para caminharem junto com a letra de modo a transferir o sentimento ao indivíduo.

(Foto: Reprodução Internet)

Não: A mais intensa das músicas do disco, a mais profunda, a mais melancólica, e sim, a mais honesta canção. A faixa é o desabafo necessário no processo de recomeçar. A música praticamente conduzida por um violão, com alguns outros arranjos dando intensidades ao longo do seu desenvolvimento. A letra sincera, transmite a sensação de quem precisava dizer aquelas palavras, não necessariamente para que a outra pessoa ouvisse, mas simplesmente para dizer a si mesmo aquilo que o prendia.

Era o Fim: Com uma melodia relativamente simples, com arranjos que por sua vez lembram músicas infantis e em outro momento lembram as trilhas de filme dos anos 60, a faixa é sobre os vestígios das incertezas que permanecem na vida do indivíduo.

Ela: Assim como ‘Não’, uma faixa intensamente profunda e acompanhada basicamente por um violão, ‘Ela’ é uma letra que fala sobre muitas vezes o indivíduo ainda se preocupar com a pessoa que já não se faz mais presente em sua vida.

Incalculável: Em termos de arranjos e melodia, a música mais experimental do discos, buscando a oscilação entre pontos com pouca informação sonora com momentos de muita informação sonora, conduzindo o ouvinte a altas e baixos ao longo da canção. Por sua vez, sua letra, carrega novamente o sentimento da reflexão do conceito, dessa vez, apresentando o questionamento de que muitas coisas não se superam pela razão, mas pelo tempo.

Junto a Gabriel D’Almeida e Biel Basile, Tim Bernardes é membro do grupo ‘O Terno’
(Foto: Reprodução Internet)

Calma: Com uma melodia bem profunda e arranjos bem interessantes, a faixa mostra que a versatilidade musical de Tim não se limita ao violão/guitarra, mas com um belo arranjo de piano no final da canção.

As Histórias do Cinema: Junto a faixa ‘Talvez’, foram as canções lançadas como singles anteriormente ao lançamento do disco. Nessa faixa, o arranjo inicialmente simples vai acompanhando a letra que brinca com o indivíduo que espelha sua vida nas histórias de cinemas, e na própria dicotomia entre as histórias e a vida, que após afirmar, ” E a vida parece mentira, porque não quer acreditar, que as histórias do cinema, é que não podem ser reais”, encerra a canção com um arranjo digno de cinema.

Recomeçar: Exatamente o mesmo arranjo, o disco termina exatamente como começa, se na letra dessa faixa o indivíduo realmente encontra a liberdade para recomeçar, a repetição da melodia inicial do disco marca como os processos de recomeçar são constantes na vida, como se dissesse: estamos terminando esse processo e começando outro.

Edições em Vinil:

2018 (original) – Noize (Brasil)

Filipe Touca
 
Cientista social colocando as bolachas pra rodar - "só existem dois gêneros de música: música boa e música ruim".
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