Faixa a Faixa: Previsão do Tempo

 Publicado por Filipe Touca    20 de novembro de 2019.

“Que sorte eu ter nascido no Brasil”. A frase retirada da primeira música do disco, resume o que está contido no disco. Desde as letras que revelam o verdadeiro malandro carioca até os arranjos que por sua hora permeiam a Bossa Nova e por outra o Samba, mas não é nem um, nem outro, mas assim como os dois estilos, um ritmo genuinamente brasileiro. Não é atoa que o disco se tornou uma referência na crítica musical pela consagração do uso do piano Fender Rhodes por Marcos Valle.

Marcos Valle é um monumento da música brasileira. Cantor, compositor, instrumentista e arranjador. Começou a sua carreira junto a Edu Lobo e Dorri Caymmi. Tem 25 discos lançados, e muitos deles, são fundamentais na música brasileira, é o disco Previsão do Tempo, para muitos, é considerado sua obra-prima, ao lado do disco anterior, Vento Sul.

Lembro que quando imergi em ouvir esse disco, entrei em contato com um vendedor de disco amigo meu, para saber mais sobre ele. O disco avaliado em mais de mil reais na sua prensagem original, é uma grande relíquia não só para os brasileiros, mas os admiradores da música brasileira pelo mundo também. Esse meu amigo contou que teve oito vezes esse disco na mão para venda, das oito, cinco ele vendeu para fora do Brasil, e das cinco, quatro foram pro Japão. Conforme mais pesquisava sobre o disco, mais eu via quanto ele e a obra de Marcos Valle como um todo era cultuada fora do Brasil, não é atoa que nomes como Jay-Z e Kanye West, usariam musicas do cantor brasileiro de base em suas músicas. Além disso o disco conta com a presença da banda Azymuth em quase todas as faixas, exceção de duas, da qual Marcos é acompanhada pela banda O Terço.

A banda brasileira Azymuth é formada por José Roberto Bertrami, Alex Malheiros e Ivan Conti.(Reprodução: Internet)

Faixa a Faixa:

Flamengo Até Morrer: A musicalidade dessa música é tão incrível que até um vascaino se admiraria por ela. Composta por Marcos Valle e seu irmão Sérgio Valle, a música conta com a banda O Terço em seus arranjos, o que faz total sentido quando se ouve os solos de guitarra da faixa que são muito característicos da banda de rock progressivo brasileiro. No que se diz respeito a letra, talvez uma das maiores paixões brasileiras e do malandro carioca, o futebol.

Nem Paletó, Nem Gravata: Principal exemplo do disco da mistura de ritmos brasileiros, como samba e baião com os ritmos norte-americanos negros, como o soul e o funk. No que se diz respeito a letra da música, Marcos Valle um pouco mais sobre o malandro que não gosta das imposições culturais como o uso do paletó e da gravata além da rotina de não acordar cedo.

Tira a Mão: Com uma melodia inicial extremamente calma que se intensifica logo após a primeira estrofe, a letra conta o diálogo do bom malandro que não quer brigar mas se for necessário não vai deixar barato. De forma sutil, sem quase você perceber, as intensidades do arranjo acompanham as tenções do conflito ali descritos na letra.

Piano Fender Rhodes eternizando por Marcos Valle (Reprodução: Internet)

Mentira: Considerada como um dos primeiros usos de sons percussivos feitos com a boca, na moda do que ficaria conhecido posteriormente como beatbox, não é atoa que a música servir de base para o clássico Contexto do grupo Planet Hemp, e se não bastasse isso, fez muito sucesso nas pistas europeias e japonesas, fazendo com que o músico fosse comparado muitas vezes pela crítica ao músico Steve Wonder. E a letra, novamente está ele lá, o malandro carioca.

Previsão do Tempo: A faixa que dá o nome ao disco, é a única instrumental do disco. A música não só mostra toda a genialidade e pontualidade de Marcos Valle quanto arranjador mas também, toda a sua versatilidade quanto instrumentistas. Na faixa dá pra entender claramente porque Marcos Valle consagrou o piano Fender Rhodes com um timbre praticamente único da música dele. Além disso ela é um marco da parceria do mesmo para com a banda Azymuth.

Mais do Que Valsa: Musicalmente, junto com De Repente, Moça Flor, a faixa que mais se aproxima com a Bossa Nova no disco. Uma melodia mais leve, quase parada, com uma voz sussurrada e uma letra que poderia ser facilmente um poema de algo poeta consagrado brasileiro.

O Terço foi a principal banda de rock progressivo no Brasil na década de 70.
(Reprodução: Internet)

Os Ossos do Barão: A primeiro momento é uma canção que não chama atenção, a melodia e arranjos que mais se distanciam do restante do disco, mas que ao mesmo tempo não se dá como algo pejorativo. Mas ao ouvir com calma, você não só encontra um instrumental riquíssimo, como se depara com um letra extremamente interessante abordando status social e o dinheiro.

Não Tem Nada Não (I): O que aconteceria se juntassem os três melhores pianistas do Brasil da década de 70 para tocarem juntos? Pois bem, você pode ter um pouco dessa experiência, afinal de contas essa faixa do disco foi composta por Marcos Valle, João Donato e Eumir Deodato. Acredito que essa informação já seria o suficiente para convencer a ouvirem ela, mas ela é um verdadeiro clássico do samba-rock brasileiro, além da letra do desabafo do malandro que sente saudade de sua ex-companheiras mas ao mesmo tempo não que se mostrar sensível com a situação, provavelmente, inspirados pelo recente término de João Donato na época.

Não Tem Nada Não (II): Quando você começa a se lamentar pelo final da faixa anterior, você é surpreendido com mais 2 minutos da mesma em forma instrumental da qual agora você pode desfrutar um pouco da genialidade instrumental do artista.

João Donato é um parceiro de longa data de Marcos Valle. Ambos são influências muito importantes para o piano brasileiro. (Reprodução: Internet)

Samba Fatal: A segunda música do disco composta e acompanhada pela banda de rock progressivo brasileiro O Terço. A mais poética das letras do disco, falando sobre os sentimentos da vida mediante as dualidades dos mesmos. Se não bastasse isso, sua letra foi escrita por Sérgio Valle ao receber no instante em que recebeu a notícia do suicídio de Torquato Neto. “Heroico ou paranoico; Histórico ou histérico; Suicídio ou morticídio; Seu ato de morte; Foi um fato da vida”.

Tiu-ba-la-quieba: Na minha opinião a melhor música do disco. Uma melodia que permeia o pop sem ser nem um pouco simplória e rasa. Uma letra sem complexidades mas ao mesmo sem obviedades. Um refrão com uma característica marcante da música brasileira: onomatopeias. De fato, uma faixa para ‘cuidar da cabeça com muito amor’.

De Repente, Moça Flor: Muito semelhante a Mais do Que Valsa, mas ao mesmo tempo diferente da mesma, a faixa se aproxima muito dos modelos tradicionais do bossanovismo.

Edições em Vinil

1973 (original) – Odeon (Brasil)
1994 – Emi (Brasil)
2012 – Light In The Attic (Estados Unidos)
2013 – Light In The Attic (Estados Unidos)
2017 – Light In The Attic (Estados Unidos)
2018 – Polysom (Brasil)

Filipe Touca
 
Cientista social colocando as bolachas pra rodar - "só existem dois gêneros de música: música boa e música ruim".
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