Sulicídio: Quais são os Limites de uma Crítica?

 Publicado por Filipe Touca    20 de dezembro de 2016.

 

30 mil visualizações em um dia. Hoje, quase 4 milhões de visualizações. Sulicídio, o que há de tão polemico? Baco Exu do Blues & Diomedes Chinaski são os responsáveis por essa música que veio como uma pedrada do nordeste contra o sul do país. Buscando criticar a polarização industrial do rap do sudeste, sul do Brasil, principalmente do eixo Rio-SP, ambos rappers nordestino se juntaram afim de desabafar e trazer os holofotes para a cena nordestina.

Apesar de abordarem um tema extremamente necessário, muito se discutiu sobre o método do qual foi utilizado. Frases presentes na música como: “Sem amor pelos rappers do Rio; Nem paixão por vocês de São Paulo; Vou matar todos a sangue frio; E eu tenho caixão pra caralho”, “Não é comendo ‘traveco’ que se vira fenômeno (Ronaldo); Alguém avisa pro Ret”, “Esses Mc são tudo favela gourmet”, e a mais polemica de todas, “Rapá, cês fazem rap pra comer fã; Meu rap é agressivo; Mandei algumas fãs; Soropositivo”.O resultado não foi outro do que esperado, redirecionaram o holofote para o nordeste e receberam outras músicas em forma de resposta como “Discarrego” (Nocivo Shomon) e “SulTaVivo” (Costa Gold).  Nesse sentido, quais são os limites para a realização de uma crítica?

Spotify: https://play.spotify.com/album/1naa8HW3zln4Olz3Zn6TLT

Primeiramente, vamos conhecer os personagens. Diomedes Chinaski (primeiro nome extraído do personagem de HQ de Lourenço Mutarelli da história “O Dobro de Cinco”, e o segundo do alter-ego de Charles Bukowski), nascido na região da grande Recife, 24 anos, começou a carreira escrevendo letras para seus amigos. Quando percebeu que o Nordeste já era berço de diversos grupos como Faces do Subúrbio, sentiu a liberdade para adentrar a floresta do rap. Hoje, participa do grupo Chave Mestra, junto a outros seis rappers, tem um conjunto de músicas aleatórias lançadas, realiza shows quase todos os fins de semana, e está perto a lançar o primeiro disco, “Iluminuras”.

Baco Exu do Blues (Baco, Deus da loucura, e Exu do Blues, proveniente da sua relação com Blues e do misticismo que envolve tal gênero), nascido em Salvador, 20 anos, conhecido pela qualidade da lírica de suas músicas e pela sua capacidade de retratar a realidade, influenciado pela sua paixão pela literatura e pela cultura de Salvador. Realizou participação em diversos conjuntos, e assim como Chinaski, tem um conjunto de músicas aleatórias gravadas, tendo como principal base de influência a poesia de escárnio, dando um tom de ofensividade a suas rimas.

 

Em entrevistas ao canal de rapper do youtube “RapBox”, com ambos os cantores, estes tiveram espaço para poder falar sobre as reais intenções de “Sulicídio”, de rebater as críticas recebidas e se houve ou não algum arrependimento na produção da faixa. Diomedes Chinaski revela que ao conhecer Baco, de forma natural, sentiram a vontade de realizar uma música juntos. Somando a insatisfação que dois tinham com a indústria musical que desprezava a cena nordestina em pró da cena do sul e sudeste do país, da diferença de atenção que havia entre os “famosos do sul” para com os da cena nordestina, e além, o preconceito que sofrem pelo público desta região, do qual expressou seu sentimento na música “Expurgo” (junto a Baco, Nissin (Oriente) e Rapadura, no canal RapBox), onde afirmou: “De um lado um público jovem, maldita massa despolitizada; As vezes uns tão radical, mas base teórica nada” e “Fui infeliz atacando Mc’s? Não! questionei a indústria”.

Segundo o rapper, o nome vem do fato de que quando os conjuntos de rap da Nova Escola da região Sul e Sudeste vão tocar na região Nordeste, são chamados pelo público de “Rappers do Sul”, dessa forma, Sulicídio seria uma expressão usada para designar que eles matariam o mercado dos “rapepers do sul”. Chinaski reconhece que posteriormente  houve uma irresponsabilidade no que se diz respeito ao nome da música e a arte, além de dizer, que por mais que não houvesse a intenção da qual tiveram as interpretações do público, trechos como do “soropositivo” de Baco, poderiam ter sido evitados, mas que não se arrepende do lançamento da faixa.

Já Baco Exu do Blues vaia firmar que sua intenção era mostrar ao público que existe coisa boa proveniente do Nordeste no que se diz respeito ao rap, num contexto onde até o público nordestino valorizava mais os “Rappers do Sul” do que os da cena local. Ele ainda revela que a intenção dele nunca foi atacar os MC’s, mas ao públicos destes, porém, se faz necessário atacar a “divindade” para atingir o “fiel”, como responde ao ser questionado sobre a necessidade de citar nomes: “Será que se eu não citasse nomes o público dos caras parariam para me ouvir?”. Além disso, vai dizer que como nordestino, não sente peso nas costas de ter feito algo que trouxe o holofote para seu povo. Como o mesmo diz na música “Expurgo”: “Riram do meu sotaque, Sulicídio não foi um ataque; Foi um fod*-se ao público, esses moleques não são de verdade; Porr*, não são de verdade; Amam Mc’s e não o Hip-Hop”.

Quanto as respostas de Nocivo e Costa Gold, ele diz: “Usar dessa música para dar um hype no momento é válido, acho que eles fizeram bem. Tentaram responder Sulicídio, talvez não da melhor forma, porque Sulicídio não tem uma resposta, Sulicídio é um grito, e você não tem como devolver um grito depois de dado”.

Entrando no ponto delicado da música, Baco diz se arrepender de dois termos usados por ele na música. Primeiramente, ele diz ter dado margem para uma interpretação errônea do termo “Soropositivo”. Segundo ele, muitos dos “Rappers do Sul”, falam muito de dois assuntos em suas músicas, “DST” e “Relacionamento Sexual com as Fans”, nesse sentido, utilizando do recurso da poesia de escarnio, tentou estabelecer um paradoxo entre o que os caras mais gostam, com o que eles mais odeiam. Porém, ele reconhece que o absurdo do recurso lírico extrapolou os limites, e que assume a culpa da expressão. Além disso, afirma que se pudesse trocaria o termo “traveco” para “transexual”, pois segundo ele, acaba trazendo um sentido pejorativa, ofensiva e homofóbica, e realça que nenhum momento ele quis dizer que uma pessoa pode se relacionar sexualmente com um transexual sem problemas, o que quis dizer foi que isso não faz do rapper o Fenômeno.

De fato, os objetivos buscados por Chinaski e Baco foram atingidos. Ganharam espaço dentro do eixo Rio-SP, voltaram os holofotes para a cena nordestina e atingiram o público dos “Rappers do Sul”. Porém fica a reflexão sobre os limites de que uma crítica se pode realizar. Ambos dizem terem errado em alguns termos, e de fato, “Rapá, cês fazem rap pra comer fã; Meu rap é agressivo; Mandei algumas fãs; Soropositivo” extrapola os limites de qualquer forma lírica de poesia. Vamos ver os próximos capítulos dessa história.

E você, o que achou de “Sulicídio”? Deixe seu comentário.

Filipe Touca
 
Estudante de Ciências Sociais, cristão, esquerdista, colecionador de vinil e amante das artes - "Só existe dois gêneros de música: música boa e música ruim".
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