Sobre mortes, abutres e banalidade

 Publicado por Brunno Alexandre    29 de outubro de 2016.

‘Eu fui dominado, pouco a pouco… Os monstros que estavam adormecidos não estavam mais embaixo da cama… Meu corpo está frágil… E com os ossos fracos temo por minha saúde. Não, eu não sei se suportaria mais uma fratura… Tenho medo de outras despedidas… Ainda acordo assustado, perplexo de como as coisas se transformaram…

Não poderia aguentar mais uma vez a dor da perda… Sigo no controle, me afastando de tudo e todos que, algum dia, marcaram-me… Despeço-me como quem embarca em um trem com destino ao inferno. Minha passagem é direta, sem parada ou escala… Eu escolhi não ser julgado. Mas antes de continuar pela viagem, reverencio-os um por um…

Não é uma despedida, e sim um agradecimento: por um dia fazerem-me acreditar na sutilezas dos encontros; Eu não os culpo, seria repugnante creditar culpa em quem foi ludibriado com minha imagem… Por zelo a minha reputação, não deixo nenhum vestígio… Queimei todas as minhas roupas, os presentes e poucas souvenirs barganhas com o pouco dinheiro que obtive no decorrer da minha vida’.

10h30

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Seu nome era Augusto Santos, tinha 65 anos. Trabalha há 20 anos como porteiro. Era uma das poucas formas de complementar a renda da aposentadoria. Ele precisava do trabalho. Um dos benefícios é que poderia descansar as costas. Uma vez reivindicou uma cadeira mais confortável. Queria um encosto almofadado, inclusive até continuara sonhando com os finais da tarde em que as costas sentiriam ainda menos os pesos das horas no serviço. Seu trabalho resumia-se em receber familiares e amigos de quem residia no prédio de luxo na região central. Prestava poucos favores aos moradores. E também organizava as correspondências. Augusto ficava espantando como o correio tornou-se um depósito de contas.

Foram anos e anos sem encontrar nenhuma carta escrita à mão. O porteiro gostava de fumar. Já havia sido alvo de fofocas pelos corredores do prédio. Diziam que ao invés de trabalhar, passava o dia fumando e assistindo televisão. Augusto não se incomodava, as pessoas diziam de tudo sobre a vida alheia. Adaptou-se em fumar de 30 em 30 minutos, era um tempo razoável para o falatório e sua abstinência. Quando bateu 10h30, estava na hora do “cigaritcho”.

Era o cigarro acompanhado do café pré-almoço, um dos melhores do dia. Augusto sacou a carteira de cigarros e o isqueiro, levando um à boca. Enquanto acendia o cigarro, percebeu que um vulto caiu dos céus. Um corpo se espatifou na calçada à cinco metros de distância. Um homem completamente nu se jogou do apartamento em que trabalhava. A primeira reação foi de tentar ajuda-lo, mas o porteiro notou que o homem estava morto. Sua cabeça explodiu como uma melancia atingida por um disparo de um revólver. “Quem diabos se jogaria da sacada de um apartamento de luxo?”, pensou silenciosamente, após tragar o cigarro pela segunda vez e questionar se teria de limpar toda aquela sujeira.

10h31

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Uma jovem freira que passava pelo local percebeu o que estava acontecendo após se aproximar do grupo de pessoas que se reuniu em volta do corpo. Ainda não havia chego nenhum socorrista ou policial para impedir que os abutres cheirassem o cadáver.

Ao contrário do que antes era considerado normal, os curiosos não se sentiam incomodados com o estado do corpo. Eles estavam armados de seus smarthphones, fotografando os restos mortais, registrando a cena como se fosse mais uma obra a ser exposta em uma Bienal qualquer.

Mercedes Afonso tinha 28 anos. Ela escolheu seguir o celibato por forte influência de sua família, aos 14 anos. Eles costumam ir à igreja pelo menos três vezes na semana. Faziam orações antes de cada refeição. Mercedes sempre foi conformada. E como todos os outros adolescentes, não sabia lidar com inquietações.

Por algum motivo, acreditou que era diferente de outras meninas e meninos. Costumava passar longos períodos em silêncio. Ela não pronunciava nenhuma palavra. Conversava somente em seus pensamentos. Desenvolveu diferentes personas, inconscientemente sua mãe ressoava em uma voz que, futuramente, serviria para afastar pensamentos pecaminosos.

Mercedes percebeu que o suicida estava nu. O que teria passado na cabeça daquele rapaz? De certo, estaria sob efeito de algum entorpecente ou até manifestando a presença de alguma entidade perversa. A freira foi ao lado do porteiro, Augusto Santos, que comia outro cigarro sutilmente. “Deus há de perdoar essa alma perdida.”, pronunciou Mercedes em alto e bom tom.

“Amém, minha senhora. Esse rapaz não tinha jeito, nunca se adaptou bem. Sempre reclamava de dinheiro, emprego e cansaço”, revelou o porteiro. “É… tem gente que não se contenta com o que Deus deu”, rebateu a jovem.

Assim como os outros urubus, eles continuaram à espera do rabecão. Outras pessoas surgiram, foi necessário reforço policial para impedir que as pessoas chegassem ainda mais perto. O corpo foi levado ao IML (Instituto Médico Legal). Todas as pessoas reunidas tiveram que seguir com suas vidas.

13h30

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O escrivão continuava a escrever o boletim de ocorrência. A perícia já havia concluído o inquérito. Nenhum vestígio ou pista de um suposto homicídio foi encontrado no apartamento, localizado na região central da cidade. Não havia outra possibilidade, somente suicídio. Uma carta foi encontrada sob uma mesa de madeira de quatro lugares, com apenas uma cadeira. Ao lado dela, estava um documento de identificação e um copo de água pela metade.

O uso exagerado de reticências deixava subentendido que nem todas as palavras foram escritas, existiam mais justificativas para serem usadas. Mas nenhuma delas era mais importante, principalmente para o escrivão, que escrevera a quarta ocorrência de suicídio naquela semana. “- Ainda é quarta-feira. Por Deus, o que as pessoas têm na cabeça?”, sussurrou, antes de preencher as últimas linhas do inquérito.

23h35

Os comentários sobre o suicídio já haviam se esgotados. Não havia mais nenhuma palavra para se pronunciar sobre o caso. Curiosamente, todos os abutres presentes no ato decidiram dormir sem roupas, inclusive a freira (nenhuma voz foi capaz de impedi-la).

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Jornalista, estudante de ciências sociais e um bon vivant pobre.
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