Skeeter e a ascensão dos beatmakers

 Publicado por Filipe Touca    22 de agosto de 2017.

O rap nacional passou por diversos booms nas últimas décadas. Primeiramente na década de 1990 nomes como Racionais MC’s, MV Bill, Facção Central e outros foram referências no que se diz respeito a popularização do estilo musical no Brasil através de letras focadas em mostrar a realidade das periferias brasileiras. Apesar do rap nunca deixar de ser ouvido no Brasil, a cena ficou um pouco apagada, mas então veio um novo boom nos anos 2010, com Criolo e Emicida. Uma pegada diferente, mais musical e mais abrangente. E por fim, o último boom aconteceu nestes anos (2016 e 2017), com talvez o maior número de rappers em ascensão. Coruja BC1, Síntese, Diomedes Chinaski, Bk’, Djonga, Clara Lima, FBC, Froid, Menestrel, são alguns dos muitos que ganharam grande espaço na cena.

Porém não foram apenas os rappers propriamente que ganharam mais espaço e mais respeito com esta nova ascensão do rap. Outros importantes artistas essenciais ganharam enorme respeito: os DJ’s e os Beatmakers. Ta certo que no que se diz respeito aos DJ’s, muitos já figuravam como grandes nomes da cena, como DJ Hum, KL Jay, DJ Nyack e entre outros. Mas abriram se as portas, ou melhor, passou-se a valorizar, e dar o devido respeito a um importante artista por de trás do rap, o beatmaker. Nomes como DJ Caique, NaveBeatz, JXNVS, Tropkillas e entre outros, são um pouco desse trampo que vem cada vez mais ganhando espaço na cena. Hoje, são oferecidos até cursos para aqueles que desejam seguir a carreira como beatmaker. Em busca de compreender um pouco mais do universo dos beatmakers, o No Nosso Quintal entrevistou o beatmaker Skeeter, que produziu beats para músicos como Coruja BC1, Ogi, Síntese, Do MC, e muito mais.

NNQ: Qual é a sua trajetória quanto beatmaker?
Eu comecei rimando na verdade, e depois aprendi fazer os beats por necessidade, produzia os beats pro grupo do qual eu fazia parte e depois fui produzindo pra uns amigos também e assim foi alcançando cada vez mais pessoas. Um tempo depois resolvi que minha área era como beatmaker mesmo e parei de rimar, e pouco tempo depois comecei treinar nos toca-discos pra ser DJ também. Hoje é assim que me intitulo: Beatmaker e DJ.

NNQ: Qual o papel do beatmaker no cenário musical? O que o diferencia de um DJ?
O beatmaker é de extrema importância, se tornou como um novo elemento do Hip Hop acredito eu, afinal sem ele não tem batida pro MC rimar, pro DJ tocar, pro BBoy dançar e assim por diante. Beatmaker como já diz a tradução, é “fazedor de batida”, é o cara que cria a instrumental que o MC vai rimar em cima (ou não necessariamente pra alguém rimar, tem instrumentais que falam por si só). Geralmente se utiliza de softwares/teclados/controlador/sequenciador/bateria-eletrônica pra produzir num estúdio, home-estúdio ou onde quer que seja. DJ é outra fita completamente diferente, é o cara que anima as festas de Rap através da seleção de músicas, mixando uma musica a outra, fazendo scratch, back-to-back, beat-juggling e performance em geral. O DJ na maioria dos casos utiliza um par de toca-discos e um mixer, ou em alguns casos menos frequente no Rap, se utiliza também CDJ ou controladora. Existem pessoas que exercem as duas funções, eu mesmo sou um exemplo, e existem também outras que juntam um pouco de cada mundo e criam uma performance “live”. Mas é importante saber a diferença entre elas, você pode ser os dois, mas DJ não é beatmaker e beatmaker não é DJ.

NNQ: O rap se tornou uma música em forte ascensão nos últimos anos, diversos nomes ganharam grande espaço, e nessa jornada, diversos beatmakers também, fazendo história junto ao rap. Quais são os próximos desafios para o rap e para os beatmakers?
Acho que o desafio constante é inovação, a gente sempre espera isso, a cena não é a mesma de uns anos atras, talvez a cena atual não agrade a todos, mas ela melhorou em vários aspectos e alcançou novos patamares. Inovar sempre!

NNQ: Como você enxerga a ascensão e valorização dos beatmakers?
Hoje em dia já ta bem mais acessível pra começar, eu comecei a 11 anos atras, era um pouco diferente. Hoje o acesso a softwares, plugins, tutoriais, é bem mais fácil. Com isso surgiu bastante beatmaker, e isso é ótimo, importante pra nomenclatura “beatmaker” se popularizar e deixar de ser um bicho de sete cabeças. Eu acho que a tendencia é só melhorar, tenho como exemplo o Laudz que começou na mesma época que eu e através do Tropkillaz chegou a lugares que parecia uma realidade distante pra nós beatmakers brasileiros, isso é indescritível.

NNQ: Quais são os grandes nomes dos beatmakers da atualidade e quais são aqueles que tem um futuro promissor?
Cara, meus produtores nacionais favoritos da atualidade são o Mestre Xim e o Deryck Cabrera, se eu fosse gravar uns sons, com certeza eu ia querer beat desses caras haha’.

NNQ: Quais são os seus próximos trabalhos?
Tem bastante coisa pra vir, mas se tratam de trabalhos em que eu não acompanho o processo tão de perto e não sei previsão de lançamento, o que posso anunciar sem sobra de duvidas é o “NDDN”, álbum que fiz em parceria com o CORUJA BC1, produzi todas as faixas, já está gravado/mixado/masterizado e falta apenas alguns detalhes.

NNQ: Existe algo mais que deseja comentar sobre o assunto?
Acho que é isso, apenas agradecer o espaço cedido e agradecer mais ainda aqueles que me apoiam e são o combustível pra eu continuar fazendo.

Filipe Touca
 
Cientista social colocando as bolachas pra rodar - "só existem dois gêneros de música: música boa e música ruim".
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