Sampaio, o velho bandido

 Publicado por samuelhernandez    23 de novembro de 2016.

Vinha andando assustado. Quase ralando os ombros na parede de grafiato de uma casa.
Nitidamente estava com raiva. Mas o medo já havia ultrapassado o limite da sanidade.
Enquanto se esgueirava e andava o mais rápido que podia começou a ouvir um som que vinha de dentro da sua cabeça.
        “Eu que sou filho de um Sampaio teimoso
            descobri maravilhado que sou mentiroso.”
Tentou pensar em alguma coisa que abafasse esse sentimento.
Até sua cabeça estava contra ele naquela cidade ?
Cachoeira do Itapemirim estava mudada.
Se escondeu atrás de uma placa de ofertas de supermercado e respirou fundo.
Sentiu cheiro forte de sangue. Foi quando percebeu que o tiro bem no meio do antebraço estava vazando e possivelmente chamando atenção.
Não adiantava mais tentar esconder. Seria Ridículo !
Qualquer um conseguiria ver a enorme mancha de sangue no seu braço e na cintura de sua camisa.
Continuou andando ainda seguindo na avenida Aristides Campos.
Chegando na esquina com a rua Henrique Dutra avistou o Bar do Ponto.
Entrou sem falar nada tentando disfarçar a dor abominável.
Os senhores que bebiam no bar olharam rápido para Sampaio.
Por algum motivo desconhecido, num lance de sorte, seguiu para o banheiro antes que qualquer um percebesse o sangue.
Tirou a camisa. Molhou na pia e com a própria começou a limpar as manchas de sangue do seu corpo.
Acendeu um cigarro. Deixou um sorriso escapar pelo canto da boca.
A parte molhada da camisa rasgou e amarrou sobre o ferimento.
Com o isqueiro queimou a camiseta no lixo velho de plástico no canto do banheiro.
 “Descobri que a velha arca já furou
 Quem não desembarcou
      Dançou na transação dormindo”
Abriu a porta para deixar a fumaça do lixo ir saindo aos poucos junto com a fumaça de seu cigarro.
Espiou pela fresta da porta e aliviou-se ao ver que ninguém tinha ouvido ou percebido nada.
Saiu do banheiro de alma lavada e com uma dor alucinante no ante-braço.
Mirou-se no espelho e um pensamento cortou sua euforia:
“Sou feio, desidratado e infiel, bolinha de papel”
Recuperando o Sorriso, continuou:
  “Que nunca vou ser réu dormindo.”
Comprou uma lata de Cerveja, ainda com o cigarro aceso.
Saiu do bar e seguiu na avenida.
Na próxima rua, bem no cruzamento da avenida com a rua maranhão
percebeu uma movimentação estranha, Viaturas Policiais, Burburinho e Alguns corpos no chão.
O plano tinha sido um sucesso. Conseguiu se livrar dos companheiros de assalto da maneira mais sorrateira. Os muitos anos no crime já haviam o ensinado a não sentir remorso.
Estava livre das obrigações com “a firma”. Poderia finalmente ir para o rio tentar a vida como cantor e compositor.
Com a expressão travada mas ao mesmo tempo gentil, passou na outra calçada ao lado da cena do crime, fitando os corpos, os milicos e os curiosos. Deu o ultimo gole, jogou o cigarro fora.
E mais a frente entrou no Bar bola cheia.
Cumprimentou a todos da mesma maneira, pegou o violão pendurado ao lado das linguiças “cabo-de-reio” e começou a dedilhar seus sonhos:
  “Eu que só tenho essa cabeça grande
      Penso pouco, falo muito e sigo pr’adiante.
   E como eu fui o tal velho bandido
   Vou ficar matando rato pra comer
     Dançando rock pra viver
      Fazendo samba pra vender… sorrindo”.

                Samuel Hernandez – 22/11/2016 – 14:21

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Músico, Compositor, Antropólogo. Colecionador de Vinil.
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