Retrospectiva: Três Selos

 Publicado por Filipe Touca    10 de dezembro de 2019.

Em 2019, o Brasil não só ganhou mais uma produtora de discos de vinil, como mais um clube de vinil, a três selos. Chegando com os dois pés na porta relançando o consagrado Sérgio Sampaio, ao longo do ano, em edições mensais, lançou e relançou discos dos mais diversos ritmos musicais brasileiros, valorizando desde nomes consagrados até importantes nomes que ainda n ão estão no mainstream. E o mais importante de tudo isso, sem perder qualidade sonora, em ótimas produções do disco, e sem perder elegância visual, na produção da arte dos discos. Vamos relembrar quais foram os 12 discos lançados esse ano pela Três Selos?

Jan: Sérgio Sampaio (Sinceramente): Com o objetivo de entrar no mercado com o devido respeito que merece e mostrando que não vinha pra brincadeira, a Três Selos deu seu ponta pé inicial com o clássico de Sérgio Sampaio. O disco do ‘maldito’ é uma verdadeira obra musical que permeia os múltiplos ritmos explorados pelo músico, além de contar com a participação de nomes como Luiz Melodia.

Fev: Sombra (Fantástico Mundo Popular): A segunda edição do selo, já mostrava uma característica que permearia seus lançamentos: importantes nomes da música brasileira em seus respectivos estilos mas que fogem do mainstream. Quem conhece o rap brasileiro, pode não necessariamente conhecer o rapper Sombra, mas tenho certeza de que todos aqueles que vivem o movimento tem o devido respeito ao ex-membro do grupo SNJ. Com faixas que exploram muitos aspectos da cultura musical brasileira sem se distanciar do rap, o disco é uma verdadeira obra de arte.

Mar: Serena Assumpção (Ascenção): Filha do consagrado Itamar Assumpção, esse disco vem mostrar que ela não depende exclusivamente da obra de seu pai, mas que tem toda a sua genialidade musical própria. Com múltiplas referências da música afro, Serena fez aqui o disco intenso e profundo, que merece ser ouvido com toda atenção.

Abr: Jards Macalé (Besta Fera): O tão aguardado lançamento do novo disco do maldito Jards Macalé, não só ficou na ansiedade de ser ouvido nas plataformas digitais, mas também, nas plataformas físicas quando a Três Selos divulgou seu lançamento em vinil. Com sua voz única e letras mais do que interessantes, Jards Macalé lança o que na minha opinião, está entre os 5 melhores discos do ano de 2019.

O disco ‘Besta Fera’ de Jards Macalé lançado pelo Três Selos. (Fonte: Reprodução Internet)


Mai: Maria Beraldo (Cavala): Buscando um profundo diálogo com o imenso legado da música brasileira, o disco é de fato uma obra autêntica de Maria Bearaldo, sem se preocupar com rótulos ou limites. Como a própria publicação de divulgação da Três Selos divulgava: “CAVALA experimenta sonoridades do pop, da música eletrônica e da música de ruído, buscando o conforte que há em se arriscar,procurar, mover-se, desestabilizar e apontar”. Sem contar as participação de nomes como Tó Brandileone na produção e de Tim Bernardes na faixa Tenso.

Jun: Eddie (Original Olinda Style): Comemorando os 30 anos de estrada da banda, o lançamento foi aclamado pelos consumidores de disco de vinil. Uma banda com uma originalidade regional , mas que ao mesmo tempo com fortes influências das guitar bands, reggae e punk-rock. Eu afirmaria que existe muito de Chico Science em Eddie, ou melhor, muito de Eddie em Chico Science.

Jul: Mombojó (nadadenovo): Novamente explorando outras frentes da música brasileira atual, e buscando dialogar com o para além do mainstream foi uma surpresa mais do que grata. Um disco que foi lançado originalmente em 2004, quando nos quais seus integrantes não passavam dos 20 anos, é uma verdadeira obra desse novo underground brasileiro.

Ago: Alessandra Leão (Macumbas e Catimbós): Talvez uma das poucas coisas que se repetiram em alguns discos lançados pelo selo, é a não preocupação com a difusão da cultura afro e das religiões de matriz africana, o que aqui, não é uma crítica, e sim um elogio. Para todos os amantes das religiões de matriz africana, é um disco indispensável. Alessandra Leão, é ogã do Terreiro Recanto de Quiguiriçá onde canta e toca para os guias e Orixás.

Lançamento de Julho da Três Selos: ‘nadadenovo’ do Mombojó. (Fonte: Reprodução Internet)


Set: Josyara (Mansa Fúria): Um dos mais importantes nomes da atual música popular brasileira, mas muito longe do mainstream, Josyara tem muitos aspectos que a tornam ao mesmo tempo original e ao mesmo tempo um profundo reconhecimento a música brasileira. Seu jeito percussivo de tocar violão, é um verdadeiro encanto da artista baiana, que não se limita em críticas sociais, sendo uma voz contra o racismo e o machismo.

Out: Siba (Coruja Muda): Talvez o mais aguardado e o mais elogiado disco lançado pelo Três Selos. O novo disco de Siba em poucas semanas tinha alcançado patamares incríveis da música underground brasileira, e quando anunciado seu lançamento em vinil, foi uma verdadeira comoção para os colecionadores. Com versos curtos e refrões insistentes, com um linguajar em forma de crônica e com uma estética própria, o disco também é uma das melhores coisas que este 2019 reservou para o Brasil.

Nov: Lia de Itamaracá (Ciranda Sem Fim): Considerada não só Patrimônio Vivo da Cultura de Pernambuco, mas também a cirandeira mais famosa do Brasil, Lia de Itamaracá tem seu quarto álbum de estúdio lançado em vinil pela Três Selo. O que causou muita emoção entre os amantes do vinil pela valorização de um nome tão importante da cultura brasileira como este.

Dez: Mateus Aleluia (Fogueira Doce): O lançamento deste mês, precisou de apenas um dia para se esgotar. Com seu espaço já consolidado entre os colecionadores, a Três Selos fecha o ano de 2019 lá em cima ao lançar tal disco. Sob forte influência das músicas de Dorival Caymmi e João Gilberto, novamente permeado por uma ritualística africana, o disco é uma verdadeira valorização dos sons da natureza.

Filipe Touca
 
Cientista social colocando as bolachas pra rodar - "só existem dois gêneros de música: música boa e música ruim".
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