Porque 1972 foi o melhor ano da MPB

 Publicado por Filipe Touca    10 de setembro de 2019.

A música popular brasileira (MPB) passou por inúmeras fases ao longo de sua trajetória, abrangendo um pluralismo rítmico e cultural cada vez mais abrangente. Porém sua grande ascensão ocorreu em meados da década de 1960 e 1970.

Em um grupo de colecionadores de discos de vinil que participo, hora ou outro sempre vem a questão: Em qual ano está localizado seus discos favoritos da MPB? Movido por essa pergunta, venho aqui nessa matéria dizer, e tentar mostrar o porque, 1972, foi o ano que nos proporcionou os melhores discos desse movimento musical, na minha humilde opinião.

1. Arthur Verocai – Arthur Verocai

Imagine você ser um grande arranjador e compositor, fazendo arranjos e compondo músicas para grandes nomes da música brasileira de sua época, até que recebe o convite para lançar seu disco solo, e com isso, lança seu disco. Porém seu disco não é aceito pela grande indústria musical, as vendas são quase nulas, seu disco é recolhido das lojas pois sua gravadora não está dando conta de fabricar o número de discos que estavam sendo vendidos do ‘Secos e Molhados’, logo, derretem seu disco para dar conta dessa demanda. Cerca de 30 anos depois, um grupo de DJ’s americanos apaixonados pela música brasileira, começam a usar seu disco esquecido para fazer samples. Resultado disso, todos começam a admirar seu disco, e existem poucas unidades disponíveis, resultando no fato de se tornar um dos discos mais caros da música brasileira. É basicamente essa história do primeiro disco de Arthur Verocai, lançado em 1972, disco que hoje, é difícil de ser avaliado em preço, mas que recentemente vi ser vendido por 15 mil reais.

Muito mais do que a beleza de sua história, o disco de Verocai é uma verdadeira aula de construção de arranjos, um exemplo disso, é o fato de na sua gravação serem usados 16 violinos tocando ao mesmo tempo, e isso, só estamos falando dos violinos. Não é atoa que Madlib (Dj americano) se apaixonou pela música de Verocai, e fez questão de resgata-lo nos anos 2000, após muito tempo de esquecimento. Além da qualidade de seus arranjos, mostra a sua qualidade como compositor com em ‘Caboclo’, sua capacidade de criar músicas com uma pegada mais pop como ‘Na Boca do Sol’, e até mesmo sua complexidade instrumental como em ‘Karina’ (parecendo até mesmo um Frank Zappa a brasileira).

2. Clube da Esquina – Clube da Esquina

Milton Nascimento já tinha seu nome consagrado quanto teve a ideia de gravar um disco com os velhos amigos de Minas Gerais. Nesse sentido, Milton volta a Belo Horizonte e vai até a antiga casa de esquina onde morava os irmãos Borges (Márcio e Lô), onde quando eram mais novos, faziam da esquina daquela rua o seu clube, cantando e compondo músicas (não é atoa que mais tarde o disco se chamaria Clube da Esquina). Além dos irmãos Borges, outros amigos músicos são convidados para o projeto: Beto Guedes, Wagner Tiso, Fernando Brant e Ronaldo Bastos. Estava montado o Clube da Esquina.

O disco não é só um marco na música de Minas Gerais, como é um marco na música brasileira. Assim como é de se contemplar a beleza da geografia mineira, o disco é intensamente contemplativa, com momentos mais intensos a momentos mais calmos, que vão variando ao longo das músicas, parecendo que você está a subir e descer as montanhas mineiras.

A grande curiosidade deste disco está presente no fato de que os músicos não possuem instrumentos fixos, mas ao decorrer da composição das músicas, cada instrumentista tocava o instrumento que lhe vinha a mente para completar aquele arranjo. De acordo com Milton, foi a primeira vez que o músico gravou tocando piano, na belíssima música ‘Cais’. Além de toda beleza nas letras vindas da cultura e da paisagem mineira, a obscuridade do Regime Militar brasileiro que permeava aquela época se faz presente ao longo do disco, as músicas ‘Saídas e Bandeiras’ e ‘Trem de Doido’ são claros exemplos disso.

3. Gilberto Gil – Expresso 2222

Após 3 anos exilado na Inglaterra, Gilberto Gil retornava ao Brasil. Por mais que tenha aprimorado muito seu conhecimento no exterior, além da ampla bagagem de influências musicais que pode conhecer lá, o músico baiano não vi a hora de voltar a sua terra. Não é atoa que esse disco, seu primeiro após retornar ao Brasil, tenha o nome ‘Expresso 2222’, uma vez que Gil retirou o nome ao trem que o músico pegou de sua cidade natal até Salvador. Após a abertura do disco com a versão instrumental de ‘Pipoca Moderna’ que conta com a participação da Banda de Pífanos de Caruaru, vem em seguida ‘Back In Bahia’, da qual o nome já diz tudo o que se trata, e então, pela primeira vez no disco surge a voz do Gil dizendo: ‘Lá em Londres vez em quando me sentia longe daqui, vez em quando quando me sentia longe dava por mim, puxando o cabelo, nervoso querendo ouvir Celly Campello pra não cair, naquela foça’. Você simplesmente não consegue deixar de acompanhar o relato do músico, contando toda a experiência vivida em Londres, dos prós e contras, e principalmente, da sua saudade do Brasil. O disco ainda conta com as faixas ‘Expresso 2222’, ‘O canto da Ema’ e talvez, uma das minhas favoritas ‘Chiclete com Banana’ que começa com a frase genial: ‘só ponho um beebop no meu samba quando o Tio Sam pegar no tamborim’.

4. Os Novos Baianos – Acabou Chorarê

‘Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar o seu valor’, segundo Baby Consuelo, após João Gilberto ter dito essa frase ao grupo Os Novos Baianos, foi o momento decisivo em que eles decidiram abandonar a concepção de uma banda aos modelos dos grupos de rock da Inglaterra, e passaram a investir pesado na cultura e na musicalidade brasileira. Pra quem não sabe, após o primeiro álbum da banda, o grupo decidiu morar junto na mesma casa, e em meio a toda essa ‘bagunça’, o cantor brasileiro João Gilberto começou a fazer visitas frequentes a casa, fazendo com que o grupo cada vez mais se aproximasse com a musicalidade brasileira.

Muitas das músicas que fazem parte do repertório desse discos, as vezes parecem não fazer o menor sentido, mas na verdade, a grande parte delas são de histórias provenientes da vivência do cotidiano dos músicos. O próprio nome do disco teria vindo da frase dita pela filha de João Gilberto, ainda uma criança, que teria caído no chão, e ao ver o desespero do pai, teria dito ‘Acabou Chorare’ misturando o português com o espanhol. A frase marcou os músicos de forma metafórica, compreendendo que não era mais um momento para se lamentar e sim se reerguer. O disco possui faixas que se tornaram épicas na música popular brasileira, como ‘Brasil Pandeiro’, ‘Preta Pretinha, ‘Besta é Tú’ e ‘Swing de Campo Grande’. De fato, a gente bronzeada mostrou seu valor.

5. Lô Borges – Lô Borges

Pouco tempo após o lançamento do disco do Clube da Esquina, que se tornou um sucesso no instante em que foi lançado, não demorou para Lô Borges lançar seu disco solo, que por sinal, saiu no mesmo ano. Conhecido como o ‘Disco do Tênis’, Lô Borges potencializa em seu disco todo o início de psicodelia presente no disco com Milton Nascimento e potencializa no seu álbum solo. Além disso toda a ambiência da Ditadura Militar também se faz presente no álbum.

De acordo com Lô Borges, o álbum também é um marco no seu uso de psicoativos, no caso o LSD. Segundo o artista, a substância teria o ajudado na criação dos arranjos para trazer sua música mais próxima dos sentimentos que queria transmitir, além disso, auxiliou na criação de letras metafóricas para falar da realidade duro que o país enfrentava naquela época sem ser censurado. o álbum conta com músicas com melodias leves e densas, com letras completamente profundas, se tornando um álbum icônico na música popular brasileira.

6. Sá, Rodrix e Guarabyra – Passado, Presente, Futuro

‘Eu to doidinho por uma viola, mãe e pai de doze cordas e quatro cristais, pra eu poder tocar lá na cidade, o meu blues de Minas Gerais, o meu cateretê lá do Alabama’, talvez a letra de ‘Hoje ainda é dia de Rock’ seja um resumo completo da proposta, e do que de fato é, esse álbum de Sá, Rodrix e Guarabyra. Músicos que ficaram conhecidos pelo chamado ‘rock rural’, fizeram nesse álbum a junção da música interiorana e popular norte-americana com a música interiorana e popular de minas gerais, gerando um álbum único.

Além desses álbuns, existem muitos outros lançados no mesmo ano que foram extremamente importantes para a música popular brasileira: ‘Ben’ (Jorge Ben Jor), ‘Transa’ (Caetano Veloso), ‘Sonhos e Memórias’ (Erasmo Carlos), ‘Se o Acaso é Chorar’ (Tom Zé), ‘Toni Tornado’ (Toni Tornado) e entre outros, que exigiriam mais uma matéria sobre.

E ai? Concorda com a afirmação de que 1972 foi o ano da música popular brasileira? Sim?! Não?! Deixe nos comentários sua opinião de qual foi o ano com os melhores discos da música popular brasileira.

Filipe Touca
 
Estudante de Ciências Sociais, cristão, esquerdista, colecionador de vinil e amante das artes - "Só existe dois gêneros de música: música boa e música ruim".
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