Papai-Noel de camiseta

 Publicado por Lucio Barros    22 de novembro de 2016.

– Eliseu!

– Oi.

– Vem cá.

– Que foi?

– Me ajuda a pôr ele na entrada.

Sueli se abaixou e puxou o papai-noel pela base enquanto Eliseu segurou o tronco do boneco.

– Aqui ‘tá’ bom, de lado pra porta, como sempre.

– Ok.

Passaram alguns segundos observando o boneco da altura da vendedora que o acabara de carregar.

– Todo ano é ele, podia mudar a decoração…

– Vou falar com a dona Cláudia, mas, ela pagou caro nesse.

– Trezentos ‘conto’ em 2004 não vale o mesmo que hoje, Sueli.

– Verdade.

– É que você não costuma entrar no estoque, mas, sabe que ele passa o ano todo triste?

– Ai, Eliseu, deixa de ser besta.

– É sério, em setembro fui receber aquele fornecedor que chegou à noite, lembra disso?

– Sei.

– Então, depois de colocar as caixas no depósito, comecei a escutar uma música lá dentro.

Sueli riu.

– É sério, mulher, era o papai-noel tocando esse saxofone de plástico que nunca sai da mão dele, olha só.

Ligou o boneco na tomada e o pequeno falante começou a soar músicas de natal, a cintura mexia pra lá e pra cá com a música.

– Às vezes, um dos carregadores ligou pra ver como era.

– Bobagem, eu ouvi e era outra música.

– Não diga, Eliseu? – Sueli entrou na brincadeira.

– Era triste, sabe?

– Vou colocar o pisca-pisca, segura a escada, por favor?

Faltava ainda uma hora e meia para abrirem a loja, a patroa chegaria após o almoço, o movimento não estava alto de manhã, Sueli desligou o boneco e pegou a caixa com os enfeites de natal.

– Lembra dezembro de 2013?

– Nossa, o que foi aquilo? De onde saiu tanta noiva?

– Não, eu falo dele tocando sem parar.

– De novo com essa história, Eliseu?

– Lembra, a dona Cláudia mandou deixar ligado, decorei as músicas.

Começou a cantarolar enquanto segurava a escada para a colega colar as luzes com fita.

– Espero que nesse ano esse troço fique só de enfeite. – admitiu Sueli.

– Pára de falar assim, ele passa onze meses trancado no estoque, ‘tá’ até com o cabelo branco de tanto tempo que não toma sol.

– Deixa de ser besta, Eliseu. Pega a tesoura, por favor.

– Coitado.

Naquele dia receberam umas doze devoluções de trajes alugados, entre ternos e vestidos que Eliseu punha no Fiorino para levar à lavanderia. Sueli chegou a tirar as medidas de um jovem padrinho que conseguiu escolher a gravata mais ridícula da loja. Ao final do expediente, foram cada um pra sua casa, cada um pra sua vida.

Ao levantar a porta de aço, Eliseu levou um susto que fez o pessoal das Casas Bahia rir. O papai-noel estava de frente pra ele, como que querendo sair. Seu sorriso era o mesmo, estático e agradável, o saxofone um pouco afastado da boca e a vermelhidão em contraste com o branco nas vestes, tudo isso foi conferido, porém, o olhar do boneco se dirigia a Eliseu, por trás dos óculos dourados, redondos e sem lentes, papai-noel fitava o vendedor.

O bom censo não foi páreo para aquela surpresa, fez o sinal da cruz e girou a chave na porta de vidro. Reposicionou o boneco conforme Sueli ordenara. Pensou que devia ser coisa de dona Cláudia, já que ela é quem fechava a loja. Naquele dia, tudo seguiu normalmente, o computador do caixa dizia, no canto da tela, 16/12/2016. O vendedor preferiu não comentar com a colega, tampouco com a patroa, era melhor parar com a ‘brincadeira’.

No dia seguinte, enquanto Eliseu saía com o Fiorino, dona Cláudia precisou resolver problemas particulares, deixou a loja aos cuidados de Sueli e avisou que pagaria hora-extra caso não conseguisse voltar. Começou a anoitecer e o calçadão se enchia de gente, quando a vendedora ligou o pisca-pisca na tomada do ventilador fixo na parede, o papai-noel, do outro lado da loja, começou a funcionar. Logo entrou um casal.

– Boa noite.

– Boa noite, a senhora está bem?

– Estou sim, por que?

– Está pálida.

– Tenho pressão baixa, mas, estou bem – mentiu – como posso ajudar?

Dois dias para o natal, dona Cláudia chega com uma caixa de papelão e pede para Eliseu guardar no estoque.

– Comprei outro enfeite, achei engraçadinho, minha neta adorou.

Por mais que o papai-noel soasse as músicas por seu saxofone falso, o amplificador das Casas Bahia engolia qualquer melodia do boneco, fazendo os vendedores e a patroa decorarem sertanejo universitário.

– O pisca-pisca e o papai-noel ficaram ligados o dia todo, dona Cláudia, posso desligar um pouco?

– Pode sim, Sueli, antes de você sair, lembra de ligar de novo, por favor? Amanhã é véspera, vou deixar a noite toda.

– A noite toda ele tocando? – apontou Eliseu para o boneco.

– Tem um botão que desliga a música, ele fica só mexendo.

– Não acredito!

Sueli riu.

– Meu sonho é aprender onde fica esse botão.

– Na caixinha de ligar, no meio do fio, Eliseu! – disse a patroa.

– Todo ano essas músicas, sei todas de cor.

Todos riram.

– Esse ano eu troco, até já comprei o outro! E cantando samba, Eliseu!

Véspera de natal, último dia para extrair o consumo natalino, dona Cláudia providenciou gorros para si e aos funcionários, disse isso ao telefone para Sueli.

– Eliseu, dona Cláudia mandou pegar o enfeite do estoque e substituir o saxofone aí.

– Desliga ele pra mim, então. – pediu.

No instante em que Sueli saiu do balcão e Eliseu entrou no estoque, uma série de estalos vindos do papai-noel começou a fazer as vestes vermelhas pegarem fogo, o saxofone derretia com uma chama esverdeada, Eliseu correu para o extintor, o pessoal das Casas Bahia e da loja de lingerie ao lado vieram ajudar, as chamas consumiram boa parte das vestes do boneco, que tombou para fora da loja com o rosto quase completamente derretido, a sobrancelha direita curvara-se pra cima como diante de uma dor imensa, mas, o sorriso se mantinha estranhamente intacto.

Dona Cláudia chegou desesperada com a ligação de Sueli, removeram o boneco destruído para os fundos da loja e limparam rapidamente o local do acidente. Eliseu colocou o novo enfeite na vitrine, entre os dois manequins de noivas, tratava-se de um papai-noel de camiseta…

“metido num chinelo e de bermuda jeans

Tocando um agogô em vez de uma sineta

Cantando do xará o ‘palpite infeliz’(…)”

camiseta

 

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