Os Livros do Chico

 Publicado por Lucio Barros    17 de novembro de 2016.

Francisco Buarque de Hollanda dispensa apresentações, artista, filho das “Raízes do Brasil” e neto de “dicionário”, faz parte da configuração da música brasileira na segunda metade do século XX e está no rol dos melhores letristas contemporâneos do planeta, mas, nós brasileiros, costumamos saber menos sobre Chico do que os gringos (principalmente europeus).

Nessa lógica de apresentar o que já é nosso, prepare-se para se deparar com os livros do cara. Junto ao teatro, cinema e música, a literatura de Chico Buarque também galga renome internacional. Os três primeiros livros: ‘Chapeuzinho Amarelo’, ‘Fazenda Modelo’ e ‘A bordo do Rui Barbosa’ são importantes, porém à partir de ‘Estorvo’, o bicho pega e a genialidade de Chico vem à tona sem tom.

Além da brevíssima descrição de cada livro, segue a contextualização com a discografia para que se possa ter a noção panorâmica da obra.

 

Chapeuzinho Amarelo (1970, José Olympio)

Com ilustrações de Ziraldo, ‘Chapeuzinho Amarelo’ é uma releitura de Chapeuzinho Vermelho (né) voltada para o público infantil. Entretanto, você sabe o que é ter medo do medo? Pois é, rapidamente o livro ganhou o status de clássico da literatura infantil brasileira.

Fonte: Pesquisa de Imagens do Google

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A primeira edição de Chapeuzinho Amarelo se dá no mesmo ano que o álbum ‘Per um pugno di samba’, arranjado pelo maestro Ennio Morricone e que apresenta em italiano canções emblemáticas de Chico. O disco foi lançado durante o exílio, portanto, não deu as caras no Brasil, a não ser clandestinamente.

 

Fazenda Modelo (1974, Civilização Brasileira)

A novela ‘Fazenda Modelo’ traça críticas ao regime militar brasileiro à la Revolução dos Bichos. É carregada de ironias e põe em xeque o progressismo propragandeado na época. O livro corresponde a uma pausa de quase um ano na carreira de músico e o tempero de fábula dado à narrativa parece acrescentar ainda mais a crítica alegórica.

Fonte: Pesquisa de Imagens do Google

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1974 é o ano do consagrado ‘Sinal Fechado’ no qual canções de Caetano, Gil, Noel, Toquinho e Vinícius, Jackson do Pandeiro, Tom, Walter Franco, Caymmi, Paulinho da Viola (cuja composição dá nome ao álbum) e outros são executadas na voz de Chico. Esse álbum silenciou os argumentos de que o cantor não é intérprete. Um ano antes de ‘Fazenda Modelo’, ocorre a estreia de ‘Calabar’, peça em parceria com Ruy Guerra, dirigida por Fernando Peixoto, direção musical de Dori Caymmi, orquestração de Edu Lobo, elenco sensacional e censura.

 

A bordo do Rui Barbosa (1981, Palavra e Imagem)

Com ilustrações de Vallandro Keating, ‘A bordo do Rui Barbosa’ é um poema em livro que retrata o analfabetismo na sociedade. Pouco se fala desse livro, mas, o poema se mantém vivo entre alfabetizadores e ‘chicólatras’. Interessante ressaltar que a escrita se deu entre 1963 e 1964, sendo sua publicação bastante tardia.

Entre no link a seguir para acessar o livro: http://www.chicobuarque.com.br/livros/rb_12.htm

Em 1981, ‘Almanaque’ e ‘Os Saltimbancos Trapalhões’ são lançados, o primeiro com participações de Edu Lobo (parceiro de combinação inenarrável), Magro (MPB4), Francis Hime, Dori Caymmi, Toquinho, Miltinho, Miúcha (irmã do cantor), entre outros. O segundo corresponde à adaptação, escrita por Chico, da Peça ‘Os Saltimbancos’ (adaptação, por sua vez, do clássico ‘Músicos de Bremen’) para o cinema e em português. Conta com a participação do quarteto áurico dos Trapalhões, inclusive nas canções.

 

Estorvo (1991, Companhia das Letras)

Primeiro romance do músico. O título em si é o resumo e o efeito da leitura. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa de um rapaz atormentado, problemático consigo e com os outros. É do tipo de livro de ler ‘num tapa’, tamanha a busca de algo definitivo num circuito de incertezas pessoais. Merece destaque o psicologismo, enquanto mergulho em aspectos psicológicos da personagem central expressos não somente pelo próprio ponto de vista, mas, pelas atitudes discricionárias que evidenciam e produzem na leitura a sensação de perturbação.

Uma curiosidade: o título do livro era pra ser ‘Olho Mágico’, vale a pena descobrir o porquê.

 

Fonte: Pesquisa de Imagens do Google

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Comparando a obra com a carreira musical, a publicação de Estorvo ocorre um ano depois do Paris Le Zenith (1990), álbum essencial para se compreender o cantor. O livro antecede o álbum Paratodos (1993), cuja faixa que dá nome ao trabalho pode ser considerada a mais autobiográfica de Chico, acompanhada da exaltação da música brasileira, um verdadeiro catálogo de quase tudo que havia de melhor no Brasil, até então.

 

Benjamim (1995, D. Quixote)

Trata-se de um romance imagético, que trabalha a memória e seu percurso investigativo de preenchimento da lacuna do que se lembra vagamente e com grave angústia não se quer perder. Aliás, a tentativa hipotética de junção do passado com o presente dá ares de romance policial à narrativa. Benjamim é palpável e em terceira pessoa, se comparado ao Estorvo. Revelações de um passado resgatado, múltiplas interpretações e o instante antes da morte são marcantes nessa obra situada nos anos de chumbo brasileiros.

Fonte: Pesquisa de Imagens do Google

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Benjamim é do mesmo ano do álbum ‘Uma Palavra’, que, além da metapoesia da faixa que dá nome ao disco, resgata canções de outrora, tais como a bem humorada ‘Ela é dançarina’, a saudosa e indignada ‘Quem te viu, quem te vê’, a cabeça confusa e bastante contemporânea de ‘Pelas tabelas’, entre outras.

 

 Budapeste (2003, Companhia das Letras)

[Relato pessoal] A primeira vez que me deparei com a existência do ghost-writer foi ao ler Budapeste.

A qualidade no trato com as palavras dá um salto e o enredo leva a leitura a uma ‘epistemologia da literatura’ acompanhada do fato de que quem escreve por trás de outrem é, por sua vez, alguém. O livro rendeu filme, que apresenta de forma bela a mistura de cenários entre Brasil e Hungria.

Fonte: Pesquisa de Imagens do Google

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Em 2003 sai o DVD e CD intitulado ‘Chico ou o país da delicadeza perdida’, documentário de 1990 no qual o artista recapitula sua trajetória enquanto analisa o país desde os ‘60’. O formato envolve o show de comemoração da carreira, imagens, depoimentos, recortes de filmes e essa mistura fornece um pouco do que é Chico Buarque enquanto artista e pensador popular brasileiro.

 

Leite Derramado (2009, Companhia das Letras)

A velhice e as memórias que se desvanecem ou misturam-se com acontecimentos do tempo presente são as marcas brilhantemente expressas nesse romance sobre a decadência de uma linhagem. O ir e vir no tempo narrado abre fios misteriosos que intrigam e instigam a leitura. É do tipo de livro que te deixa alguns minutos recapitulando-o com as mãos pousadas sobre a capa e o olhar perdido nos cenários.

Fonte: Pesquisa de Imagens do Google

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Um ano antes do lançamento de ‘Leite Derramado’, a coletânea Chico Buarque Essencial faz um resgate precioso da discografia do artista em quatro CD´s e um DVD. Vale lembrar que, em 2011, o álbum ‘Chico’ com dez faixas mantém a tradição de genialidade nas letras e musicalidade bem trabalhada. Destaque para ‘Sou Eu’, ‘Barafunda’, parcerias com Ivan Lins, e ‘Sinhá’, composição magistral em parceria com João Bosco.

 

O Irmão Alemão (2014, Companhia das Letras)

‘O Irmão Alemão’ nasce de um momento em que Chico, Vinícius, e Tom ouvem de Manuel Bandeira que Sérgio Buarque de Hollanda (o historiador) tinha um filho em Berlim. Após exaustiva pesquisa, idas e vindas nessa questão, o livro é publicado em 2014, apesar de situado num cenário fictício. A leitura é rápida, como em ‘Estorvo’, ‘Benjamim’ e ‘Leite Derramado’, porém, denota maturidade literária que firma Chico Buarque entre aqueles cuja obra vale o mergulho.

Fonte: Pesquisa de Imagens do Google

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Em 2014 não houve álbum, o último foi em 2011 (supracitado), entretanto, é quando Chico Completa 70 de idade e uma trajetória multifacetada na arte.

 

Vale lembrar:

Gota d´água (1975, Civilização Brasileira)

Peça escrita em 1975, a Gota d´água eriça os pelos toda vez que Bibi Ferreira, no papel de Joana, profere seus dizeres desde as entranhas até o ato cênico. Teve sua versão em livro e revive Medeia de forma ímpar.

Fonte: Pesquisa de Imagens do Google

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E aí? Letra que dá em Chico, dá em Francisco?

Gostou, quer acrescentar? Criticar? Contribuir? Pedir outras análises? Fique à vontade, o quintal é nosso!

 

FONTE:

www.chicobuarque.com.br

Wikipedia e Youtube

 

Carinhosamente digitado por Lúcio de Barros

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