O selo Risco: música independente

 Publicado por Filipe Touca    11 de junho de 2016.

A música independente sempre esteve presente no cenário nacional. Mesmo sendo ofuscada pelas grandes mídias e gravadoras, a cena independente tem o anseio de desenvolver a música enquanto arte, seguindo na contramão dos interesses mercadológicos. A partir desta concepção, é necessário aprofundar um pouco mais neste universo, ressaltando quem são os principais fomentadores.

A música independente pode ser compreendida como um trabalho que é realizado pelos músicos desassociado de interesses terceiros aos dos próprios membros, onde desde a sua composição, tanto literal quanto musical, até a sua materialização para distribuição, é realizado pelos próprios compositores, de tal forma que se desprende dos interesses de mercado e gravadoras.

O Brasil sempre foi um país onde se desenvolveram diversos músicos e bandas da cena independente, porém, ao mesmo tempo, sempre foi uma nação onde, infelizmente, as forças da mídia e gravadoras fizeram com que os músicos independentes seguissem às margens. Contudo, nos últimos anos a cena tem ganhado força devido ao avanço da internet, que permitiu com que os ouvintes tivessem mais facilidade de entrar em contato com esses artistas, seja através das redes sociais, do Youtube, ou até pelo fato de muitos desses músicos disponibilizarem gratuitamente seus discos para download em seus sites. É nesse contexto atual que se encontram a banda O Terno e o selo-coletivo Risco.
Durante a Virada Cultural de Marília, no dia 21 de maio, a equipe do No Nosso Quintal pode conversar tanto com os integrantes da banda O Terno quanto com Guilherme de Jesus Toledo, um dos fundadores e quem assumiu a frente do selo-coletivo Risco.

O produtor discutiu a importância e as dificuldades das bandas independentes no país, em relação às questões políticos e culturais, para compreender o papel de cada um destes elementos para a consolidação da cena.

 

Guilherme de Jesus Toledo é um dos fundadores do selo Risco e continua desenvolvendo incentivos para o cenário independente

Guilherme de Jesus Toledo é um dos fundadores do selo Risco e continua desenvolvendo incentivos para o cenário independente

 

O selo-coletivo Risco tem como origem um conjunto de bandas que se articulava coletivamente de forma que músicos de uma banda se envolviam com músicos de outras bandas para desenvolverem projetos paralelos. Com isso, em 2013, Guilherme de Jesus Toledo abriu o Estúdio Canoa, que tem como proposta ser um espaço onde músicos possam produzir seus trabalhos. Segundo Guilherme Toledo, em 2014 surgiu a necessidade de nomear este movimento que estava ocorrendo, assim, num primeiro momento, foi criado um coletivo, “Confusão Grupa”, e dessa forma nasceu o selo Risco.

 

A história coletiva foi ficando cada vez mais fraca e o projeto passou a se concentrar mais em mim e no Guilherme Giraldi, que é baixista do Charlie e as Marretas, outra banda do selo. E recentemente entrou o João Bagdá, que é outro parceiro nosso. A partir daí a gente está tentando dar uma cara de selo para isso e buscando o que o mercado musical quer de um selo.

 

Quanto ao futuro do Risco, Toledo afirma não saber muito bem o que vai ocorrer, pois enxerga o mundo da música como algo muito inconstante, de forma que se faz necessário calcular friamente cada passo a ser dado, onde as vezes não convém crescer em quantidade de membros, mas sim na articulação desses músicos. Sendo assim, o selo-coletivo Risco tem como objetivo ser um espaço para fortalecimento das necessidades das bandas independentes no cenário nacional, ou nas próprias palavras do produtor, “o intuito é focar em poucos artistas e nos trabalhos paralelos que eles realizam entre eles”. “É só conseguir um guarda-chuva maior, para que, às vezes, eles saiam de suas bandas e tenham outras possibilidades como músicos”, finalizou.

Uma das referencias de bandas independentes no cenário contemporâneo nacional, O Terno faz parte do selo Risco e teve seus discos de vinil produzidos por eles.

Guilherme D'Almeida, Tim Bernardes e Biel Basile formam o power-trio de canção-rocknroll-pop-experimental, O Terno

Guilherme D’Almeida, Tim Bernardes e Biel Basile formam o power-trio de canção-rocknroll-pop-experimental, O Terno

Quando entrevistamos a banda, questionamos sobre sobre a cena independente, o baterista da banda Biel Basile foi bem preciso, “a música independente é feita por guerreiros, verdadeiros guerreiros e por formigas trabalhadoras, essa é a real. Pois é um lugar que tem muita criatividade, muito produto intelectual, mas muito pouco recurso financeiro.”.

O baterista ainda destacou as dificuldades frentes as questões político-econômicas que o Brasil apresenta, segundo ele se desenvolve muitos trabalhos com muita criatividade, porém se tem poucos recursos financeiros para a concretização destes. Basile destacou a atenção para o fechamento do Ministério da Cultura e, posteriormente, a junção com o Ministério da Educação, promovida pelo presidente interino  Michel Temer (PMDB). Segundo o baterista, este seria o ministério responsável por zelar por toda a música independente nacional. Ele ainda trouxe como exemplo o cinema independente brasileiro que após inúmeras investidas passou a ganhar espaço no cenário internacional e trazer retornos financeiros superiores aos investidos.

Em seguida, guitarrista e vocalista da banda, Tim Bernardes, chamou atenção aos aspectos culturais brasileiros que são propagados pela grande mídia e suas consequências, como dificultar o desenvolvimento da cena.

 

As pessoas entendessem porque que eles pagam 100 conto pra ir numa balada, mas não paga 15 conto pra ir em show. O valor que a cultura que tem hoje tá muito bagunçada. E entender que a cultura brasileira tem um potencial de retorno financeiro muito alto.

 

Para Tim Bernardes, é necessária uma reestruturação cultural de modo que se valorize a música brasileira como, por exemplo, países da Europa valorizam a música brasileira. Em turnês no velho continentes, os músicos descreveram a experiência de encontrar sessões específicas dedicado a música brasileira, da maneira como os estrangeiros enxergam a grandeza do futebol brasileiro, eles também identificam a grandeza da música brasileira.

Filipe Touca
 
Estudante de Ciências Sociais, cristão, esquerdista, colecionador de vinil e amante das artes - "Só existe dois gêneros de música: música boa e música ruim".
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