Faixa a Faixa: Tropicália ou Panis et Circencis

 Publicado por Filipe Touca    5 de novembro de 2019.

O que a Banda de Pífaros de Caruaru e Sgt. Peppers Lonely Heart Band tem em comum? A primeiro momento, uma coisa parece completamente distante das outras, mas ambos serviram de inspiração, para elaboração de um dos mais importantes discos da música brasileira: Tropicália ou Panis et Circencis, de 1968.

De acordo com Gilberto Gil, era justamente a somatória desses que ele deseja realizar no projeto Tropicália, que contou com grandes nomes da música brasileira da época: Caetano Veloso, Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão, Rogério Duprat, Gal Costa, Torquato Neto e Capinam.

Vale lembrar que o movimento tropicalista não se limitava a música, mas estava diretamente ligado ao Cinema Novo de Glauber Rocha, ao Teatro Oficina, e as artes plásticas através de nomes como Lygia Clark.

Glauber Rocha, principal expoente do Cinema Novo, considerado o principal diretor do cinema brasileiro (Fonte: Reprodução Internet)

Faixa a Faixa:

Miserere Nóbis: Música de abertura do disco, é simplesmente uma pancada. Não só em termos musicais com toda a força que os instrumentos possuem, mas também em seu conteúdo. Escrita por Gilberto Gil e Capinam, a faixa brinca com trocadilhos na relação dicotômica entre o fuzil e a Bíblia. Além de fazer referência a planta ‘ora-pro-nóbis’ típica das florestas perenifólias do Brasil. Não bastasse isso, não enconde em nenhum momento suas referências aos clarins da banda militar de Caymmi. “Já não somos como na chegada, o sol já é claro nas águas quietas do mangue, derramemos vinho no linho da mesa, molhada de vinho e manchada de sangue”.

Coração Materno: Música do filme brasileiro homônimo de Gilda de Abreu, escrita por seu marido Vicente Celestino, é interpretada com maestria por Caetano Veloso, mostrando toda versatilidade de sua voz na canção. Os arranjos de Duprat na música são simplesmente profundos, acompanham a intensidade da letra, que por mais que se trata da trilha sonora de um filme, quem não conhece, percebe que a música por si só cria as condições necessárias para poder imaginar tudo o que alai está sendo abordado.

Panis et Circenses: ‘Mas as pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer’. Composição de Caetano Veloso e Gilberto Gil, eternizada na interpretação de Os Mutantes, se tornou um verdadeiro ato contra a Ditadura Militar da época. Não só o título que traz do latim o termo ‘pão e circo’, mas na própria letra em que questiona os valores tradicionais daquela época. Apesar da forte influência do rock inglês na sua melodia, é possível notar aquilo que Os Mutantes desenvolveram com maestria, o desenvolvimento do rock brasileiro. Dessa forma, não só a voz de Rita Lee se torna cativante, mas toda a genialidade musical de Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, que trazem quebras e mudanças harmônicas completamente interessantes para a canção.

Os Mutantes e Gilberto Gil (Fonte: Reprodução Internet)

Lindonéia: Inspirada na obra Lindonéia, a Gioconda dos Subúrbios, de Rubens Gerchman, a música composta por Caetano Veloso, ganhou os arranjos mais do que perfeitos de Rogério Duprat, que só não foi mais feliz do que a própria interpretação de Nara Leão, da qual transmitiu com intensidade aquilo que Caetano e Gil desejavam. A mistura desses elementos faz da canção, um marco da cultura pop da época.

Parque Industrial: ‘É somente requentar e usar, porque é made, made, made. Made In Brazil!’ Na minha opinião a mais importante música do disco, possui não só uma intensidade musical, como a genialidade em sua letra. Composta por Tom Zé, e aqui interpretada por todos os músicos que compunham o disco, a música não só satiriza a ‘modernização’ brasileira e a ascensão da publicidade nacional, mas enumere uma lista de elementos que por hora valorizam e por hora contradizem mas que no final, são todos ‘made in brazil’.

Geleia Geral: Composta por Gilberto Gil e Torquato Neto, talvez a canção seja um resumo do que se trata o álbum como um todo: a flexibilidade de caminhar entre o lírico e o popular, banhado pelos arranjos de Duprat, e carregado de toda provocação que aquele momento histórico exigia. Com isso, Gil encerra o primeiro lado do disco declamando os versos de Torquato Neto.

Baby: Provavelmente a canção mais pop do disco, que não significa nenhum demérito a ela, foi composta por Caetano Veloso e interpretado pelo mesmo junto a Gal Costa. Se não bastassem os arranjos de Duprat, o dueto realizado pelos cantores é extremamente comovente, e nostálgica para aqueles que viveram aquele período, afinal de contas, sua letra é um retrato simples de pessoas apaixonadas daquele momento histórico.

Nara Leão e o maestro Rogério Duprat, responsável pelos arranjos do disco (Fonte: Reprodução Internet)

Três Caravelas (Las Tres Carabelas): Música de Algueró Jr. e Moreau, versão de João de Barro, é interpretada por Caetano e Gil, revezando entre o idioma espanhol e o idioma português. Por mais que comum, de certo modo, na época artistas da mpb interpretarem músicas do idioma espanhol, existe um aspecto importante a ser mencionado, a valorização da relação entre América Espanhola e América Portuguesa, visto que todo continente sul-americano passava por ditaduras militares naquela época.

Enquanto Seu Lobo Não Vem: A música composta por Caetano Veloso, interpretada pelo mesmo com os back vocais de Rita Lee e Gilberto Gil, não tem apenas em seu título uma proximidade com os contos infantis, mas o início de sua letra ao relatar alguém na floresta, mas ao passar do tempo acaba desembocando no concreto da cidade. Aqui novamente, temos uma forte influência dos clarins da banda militar de Caymmi.

Mamãe, Coragem: A enigmática composição de Torquato Neto, recebeu a mais bela interpretação de Gal Costa, mas carregou consigo o mito de ser um anúncio do suicídio do compositor. Porém, o fato é que a música aborda com profunda maestria a vida dos imigrantes do sertão nordestino rumo às cidades grandes.

Torquato Neto (Fonte: Reprodução Internet)

Bat Macumba: Essa composição de Caetano e Gil é a mais explícita evidência da influência da poesia concreta no tropicalismo. Com arranjos completamente experimentais de Duprat, a música articula tanto o elemento de destaque exterior, o Batman, como o elemento característico brasileiro, a Macumba. No encarte do disco, é o possível ver a disposição da letra da música formando um morcego.

Hino ao Senhor de Bonfim: Para finalizar o disco, era evidente que se fazia necessário uma homenagem a Bahia, afinal, a maioria dos membros eram de lá, mas a escolha da música não foi atoa, não só uma homenagem a Bahia, é um grito de resistência, que exalta a vitória coletiva, e que ganhou muito mais intensidade com os arranjos de Duprat.

Edições em Vinil:

1968 (original) – Philips (Brasil)
1972 – Philips (Brasil)
1979 – Fontana (Brasil)
1982 – Fontana (Brasil)
1985 – Fontana (Brasil)
2008 – Lilith (Rússia)
2014 – Universal Sound (Reino Unido)

Filipe Touca
 
Cientista social colocando as bolachas pra rodar - "só existem dois gêneros de música: música boa e música ruim".
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