Faixa a Faixa: Abaixo de Zero:Hello Hell

 Publicado por Filipe Touca    5 de dezembro de 2019.

“Se vem baseado no passado, só há um resultado ‘cê vai se foder. Porque eu sou o agora”. Talvez essa frase resuma o disco considerado por importantes veículos de comunicação como o melhor disco do ano de 2019. Sem medo de falar sobre a tragédia que ocorreu em sua vida, Black Alien se abre, e usa isso não só como um modo de superar, mas como um instrumento de força para todos aqueles que se encontram na situação em que o rapper estava.


Ao lado de nomes como Sabotage, Racionais MC’s, Marcelo D2 e entre outros, Black Alien é considerado um músico dos mais influentes na cena do rap brasileiro. Além do flow (modo de cantar e rimar) extremamente próprio, trazia consigo desde a década de 90 aquilo que se tornaria muito característico do atual cenário do rap nacional, inúmeras referências não só em suas letras, mas nas próprias batidas e samples. O início de sua carreira musical se deu no início da década de 90, quando recebeu o convite de Speedfreaks para fazer parte de sua banda, momento do qual inovaram a cena do rap nacional através da mistura da língua portuguesa com a língua inglesa, característica que carregou consigo ao longo de sua carreira. A banda subia de patamar na medida em que seus singles eram lançados em importantes coletâneas na época.

Speed e Black Alien (Fonte: Reprodução Internet)

Já na metade final da década de 90, devido a inúmeros motivos, Black Alien sai do Speedfreaks e recebe o convite para se juntar ao Planet Hemp, no qual permaneceu por cerca de 5 anos e onde adentrou de fato ao conhecimento do grande público. Após sua saída do Planet, juntou-se novamente com Speed, e gravaram o álbum Na Face e a gigante faixa Quem Que Caguetou. Já em carreira solo, lançou em 2004 o disco Babylon By Gus – Vol I: O Ano do Macaco, considerado pela crítica musical como um dos principais álbuns de rap nacional.

Após o lançamento de seu primeiro disco solo, Black Alien teve sérios problemas com o uso de álcool e cocaína, fazendo com que sumisse da cena musical por muito tempo, onde primeiramente se afundava cada vez mais, e posteriormente buscou sua reabilitação. Dez anos após seu primeiro disco, Black Alien retorna e lança Babylon By Gus – Vol. II: No Príncipio Era O Verbo, disco que marcou seu retorno a carreira musical, do qual retratava sua nova fase de vida. Porém ainda faltava algo. Então veio em 2019, com a produção musical de Papatinho, o disco Abaixo de Zero: Hello Hell, onde Black Alien resolve falar abertamente sobre os seus dez anos longe da música, falando das suas dificuldades com o vício, da sua superação, e mais do que isso, numa linguagem específica e pensada em ajudar aqueles que estão passando pelo mesmo caminho que passou.

Quinze anos após sua saída do grupo, Black Alien faz show com o Planet Hemp.
(Fonte: Reprodução Internet)

Faixa a Faixa:

Área 51: A faixa é extremamente interessante de se ouvir pela primeira vez. Afinal de contas, não se tinha muita ideia do que seria esse novo álbum do Black Alien, então, ela vem com os dois pés na porta, além dos beats muito bem marcados e com o grave em destaque, a letra já mostra de cara de que o cantor não estava afim de esconder nada, muito pelo contrário, de abordar as tragédias de sua vida, e mais do que isso, de falar sobre o novo homem que ele é, afinal de contas, “Quem precisa de correntes de ouro pra ser Gustavo? Quem precisa de correntes de ferro pra ser escravo?”.

Carta a Amy: Com um beat mais melódico, a letra oscila entre diversas características que consagraram Black Alien: as críticas intensas, o romantismo, o papo reto e versões em inglês. Além de tudo isso, uma nova característica nova do cantor, a valorização da sua superação e ao mesmo tempo a humildade de se ver como um humano falho. “Se um dia a coragem foi líquida, agora ela é sólida, irmão. Tenho não só que lidar com a vida, lido com ela sem pó e sem dó então .Sozinho eu ‘tô em má companhia, ‘tá ligado”. Vale ressaltar a menção ao trecho de uma música do Bob Marley no refrão.

Vai Baby: Falar da realidade do rap não é falar apenas de críticas sociais, mas também de falar dos momentos belos da vida, e isso sempre esteve presente na outra de Gustavo. Nessa canção, o músico faz uma canção romântica com suas características, lembrando muito a canção Como Eu Te Quero de seu primeiro disco, cheia de referências e ao mesmo tempo completamente romântica, e pra conciliar tudo isso, um beat muito característico daquilo que consagrou Papatinho, samples oscilando entre batidas marcantes e a fluidez do jazz.

Papatinho e Black Alien (Fonte: Reprodução Internet)

Que Nem o Meu Cachorro: A música lançada como single para divulgação do disco é uma síntese do que foi o período turbulento na vida do cantor e ao mesmo tempo, a síntese de sua nova vida. Uma verdadeira experiência comovente quando assistida junto ao videoclipe da canção, afinal de contas, as imagens contando um pouco da sua experiência no centro de reabilitação, auxiliada a uma letra completamente expositiva e verdadeira mexem com qualquer um. a canção é ao mesmo tempo não traz só uma conscientização mas como, principalmente, é um voto de força e apoio a todos aqueles que estão passando pela mesma situação que o cantor passou. Ah, e novamente, Papatinho foi mais do que perfeito na produção musical da canção, uma melodia que encaixa perfeitamente.

Take Ten: As referências ao clássico O Médico e o Monstro e ao filme Matrix é um pouco das inúmeras referências presentes na música, uma faixa que cada verso carrega um pouco daquilo que faz o Black Alien ser o que ele é hoje. Porém, destaco essas duas referências pois fica nítido como o cantor trabalha as dualidades da vida – a vida entre Mr. Hyde e Dr. Jekill – mas que ao mesmo tempo exige a necessidade de tomar uma decisão que fuja das amarras do sistema – a pílula vermelha.

Au Revoir: “Me parece que essa é a especialidade da casa Tirar lágrimas de um homem, meu cumpadi’, que fase”. Novamente uma canção mais melódia, que permeia tanto as dificuldades de sua trajetória e ao mesmo tempo sendo romântico, Black Alien escreve aqui uma letra de superação, não só dos seus problemas com os vícios mas em todos os aspectos da sua vida, falando do seu novo eu, e de como isso impacta nas múltiplas esferas de sua vida, afinal de contas: “O amor mais verdadeiro que eu vou ter nesse mundo é o amor próprio “

Clipe da canção ‘Que Nem o Meu Cachorro’. (Fonte: Youtube)

Aniversário de Sobriedade: Na minha humilde opinião, a mais sincera canção de Black Alien em toda a sua trajetória, não que as outras não sejam, mas nessa canção ele não só fala sobre seu passado, mas escreve como se estivesse naquele momento, fazendo com que a canção se torne a mais pesada do disco. Além disso, na letra da canção, Gustavo brinca com diversos jargões clássicos de suas canções antigas, resgatando até o próprio termo Nikity. A canção ainda conta com uma base da qual se fosse a única contribuição de Papatinho para a música brasileira, já o colocaria entre os grandes, novamente revezando entre as batidas marcantes e a fluidez do jazz, a base acompanha perfeitamente o sentimento da música.

Jamais Serão: “Eu bebo jazz, blues, soul, reggae, funk, rocknroll. Respiro hardcore, punk, o flow do Speed, speed flows”. Além da canção fazer referência aos inúmeros estilos musicais que permearam a vida de Gus, a menção do seu ex-companheiro e já falecido Speed, foi de cortar o coração de quem acompanhou a trajetória do cantor. Além disso a música evidencia uma questão que se faz presente nesse novo Black Alien, a convicção da necessidade de falar apenas o necessário, e a compreensão, de que muitas vezes, o silêncio é mais profundo que palavras.

Capítulo Zero: A primeiro momento se destaca na canção, a continuação do beat da faixa anterior, o que sugere uma própria continuação de conteúdos com o objetivo de finalizar sua nova obra.

Edições em Vinil:
2019 – Noize (Brasil)

Filipe Touca
 
Cientista social colocando as bolachas pra rodar - "só existem dois gêneros de música: música boa e música ruim".
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