Revitalizando com Edu Krieger

 Publicado por Brunno Alexandre    20 de fevereiro de 2016.

Em uma breve passagem por Marília, o compositor e instrumentista Eduardo Krieger, de 41 anos, falou sobre as novas parcerias e o novo momento de sua carreira para o No Nosso Quintal. Sempre muito bem acompanhado, o músico se apresentou ao lado do seu irmão, o guitarrista Fabiano Krieger, e o percussionista PC Castilho no último sábado, dia 5,  no Sesi.

No quesito música, Krieger deu uma aula, enquanto pessoa, mostrou que a simplicidade acompanhada de um sorriso no rosto também podem engrandecer um artista. Em um tom descontraído, Krieger falou sobre o processo de revitalização da Lapa, um dos mais importantes redutos para a música popular brasileira nos anos 2000, que promoveu a efervescência cultural na região e despontou nomes que até então eram conhecidos somente no cenário carioca, como Casuarina e Teresa Cristina. “A Lapa está localizada na região central do Rio de Janeiro. Nos anos 90, o local estava completamente abandonado, não tinha mais nenhuma tradição da música brasileira. Outros estigmas também causavam desconforto com o lugar, como as histórias emblemáticas de Madame Satã nos anos 30, o travesti que era conhecido como o malandro bom de briga que vivia na Lapa”, comenta Krieger.

Carioca Edu Krieger se apresentou no Sesi de Marília; o artista relembrou grandes canções da carreira e também tocou o novo repertório (Foto: Pedro Pellegrino)

Carioca Edu Krieger se apresentou no Sesi de Marília; o artista relembrou grandes canções da carreira e também tocou o novo repertório (Foto: Pedro Pellegrino)

Segundo o músico, depois de anos abandonado, pouco a pouco músicos e empresários acreditaram na possibilidade de reviver a cultura e a boemia no bairro. Um dos bares pioneiros foi o Semente, que proporcionou uma grande mudança na cidade, centralizando e reestruturando um movimento sociocultural de música na Lapa. “O bar Semente fica quase de frente com os Arcos da Lapa”, explica o músico, que se tornou residente de bares na região por algum tempo.

Neste mesmo período, tocando baixo, Krieger acompanhou grandes nomes da música brasileira, como Sivuca, Alceu Valença, Elba Ramalho e Geraldo Azevedo. “Foi um momento de aprendizado, fiz muitas amizades, que no futuro se concretizaram em grandes parcerias.” Krieger lançou seu primeiro disco, o “Independente” em 2006. “Na época, grande parte dos artistas da Lapa estava lançando releituras de grandes sambistas. Lançar um disco com todas as músicas autorais no mesmo período foi um desafio”, afirma.

No ano anterior, a banda Casuarina lançava seu primeiro CD e despontava nas noites cariocas. O álbum reinterpreta os sucessos de sambas mais tocados nas rodas do Rio de Janeiro, com composições de ícones do samba, como Zé Ketti, Ataulfo Alves, Adoniram Barbosa,Aluisio Machado e a participação especial de Teresa Cristina, que em 2002 também havia lançado o seu primeiro disco “A Música de Paulinho da Viola”, acompanhada do Grupo Semente. Dois anos mais tarde, em 2004, Teresa lançou o primeiro disco (A Vida Me Fez Assim), revelando suas composições autorais com uma mistura com os grandes clássicos do samba.

Esse foi o contexto de lançamento do disco do instrumentista. Krieger apresentou 14 canções autorais, entre elas “Temporais”, fruto de uma parceria com Geraldo Azevedo, “Maria do Socorro”, “Ciranda do Mundo” e um “Novo Amor”, posteriormente reinterpretadas por Maria Rita e Roberta. Sá. O reconhecimento chegou antes do lançamento do segundo disco, intitulado de Correnteza, o que ocorreu em 2009.

Para o artista, o álbum explora a versatilidade dos músicos, com arranjos mais livre e trabalhados. “Eu estava mais confiante, pude me expressar de uma forma que eu me sentisse bem”, afirma. Músicas como “Correnteza”, que dá nome ao álbum, e Clareia se destacaram em seu segundo disco.

Questionado sobre o seu olhar para a composição, Krieger explica que acontece de uma forma natural. “Existem formas diferentes de se tratar da mesma coisa. Por exemplo, é possível valorizar as qualidades de uma favela e também apresentar as críticas”. Krieger consegue unir o frisson carioca com consciência social.

Para o músico, a arte é uma forma de fomentar uma discussão, uma ferramenta para propor a reflexão. Em uma de suas últimas canções, Krieger dialoga com seu tempo problematizando os abusos da Fifa na organização da Copa do Mundo de 2014 coma música “Desculpe Neymar”. “Eu tomei minha posição, enquanto a conta passava de milhões para bilhões, a classe artista se manteve omissa. Foi uma espécie de hino para a copa, que serviu para mobilizar os músicos e os fãs de futebol.”

Contrariando o senso comum, Krieger não é um artista que se acomodou com as composições que o alavancaram na música. Edu transita com fluência em diferentes gêneros musicais. Depois de criticar a Copa, o artista lançou uma das canções mais polêmicas nos últimos anos: “Resposta ao Funk Ostentação”.O carioca critica a ostentação nas relações de consumo imprimida em uma vertente do funk que vangloria o ter. “A ideia não foi causar polêmica, e sim uma reflexão, da influência que os MC’s causam em seus fãs, esfregando cordões e relógios de ouro na cara de um garoto que vive na comunidade. Qual será a forma que esse garoto vai conseguir ostentar?”, questionou.

 Acompanhado de dois músicos, Edu demonstra total conhecimento do samba e apresenta um repertório variado; o público ficou boquiaberto com o show do carioca (Foto: Pedro Pellegrino)

Acompanhado de dois músicos, Edu demonstra total conhecimento do samba e apresenta um repertório variado; o público ficou boquiaberto com o show do carioca (Foto: Pedro Pellegrino)

Militante da música, Krieger perpassa os rótulos e estabelece uma nova e velha proposta: o debate. Em sua última música lançada, “Xeque Mate”, o compositor problematiza temas como a maioridade penal, aborto, a repressão da polícia e o empoderamento da moral por líderes religiosos. “Não quero ofender ninguém, e sim promover um debate saudável, com respeito ao ponto de vista do outro. Talvez seja assim que as coisas poderão melhorar no país”, completa.

Krieger é um artista completo. Antes de se apresentar em Marília, o músico estava em uma turnê com a cantora Ana Carolina. “Foi muito prazeroso, pudemos trabalhar de uma forma muito tranquila. Foi bom para nossa parceria.” Edu e Ana compuseram juntos parte das músicas que está no último disco da cantora, lançado em 2013. “Pole Dance”, “Combustível”, “Resposta da Rita”, em referência a composição de 1972 de Chico Buarque de Hollanda. “Nós [Edu e Ana] tivemos o aval do Chico, que também nos deu a honra de gravar conosco”. Concluindo a entrevista, sorriu o músico, revelando a admiração e influência de Chico Buarque.

Krieger pouco a pouco entra para história da música brasileira, mostrando uma trajetória de simplicidade e sucesso, sem omitir-se das principais questões sociais do Brasil.

 

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Jornalista, estudante de ciências sociais e um bon vivant pobre.
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