Serenata para afastar o tédio

 Publicado por Nosso Quintal    6 de maio de 2020.

Deixo de lado uma crônica sobre poesia e passo a me dedicar à serenata. E, refletindo um pouco sobre os termos em questão, pondero que “poesia” e “serenata” bem poderiam aparecer como sinônimos em algum dicionário que, enfim, levasse a língua realmente até às últimas consequências de suas possibilidades. Mas, se, o poeta é aquele que tem o dom de expressar-se com beleza, independente do tema, nada mais poético que um seresteiro empunhando o seu violão noite adentro para cantar as dores de amores idos e vividos.

            E, se o parágrafo acima lhe parece ridiculamente terno, meu leitor, saiba que ele foi pensado para ser assim mesmo, feito uma modinha comovente, que não se consegue ouvir sem emoção, como acontecia no Brasil e em diversos lugares do mundo tempos atrás. E por qual motivo escreve isso, ora? Poderá me perguntar. E direi que vem de Marília, minha cidade natal, um ato que me comoveu pra caramba: o meu amigo desde a adolescência, Kreo Fidélis, que para mim será sempre, apenas, Kreo, fazendo serenatas à varanda de edifícios para entreter os moradores nesses tempos indigitáveis.

            Foi a maneira que ele criou para continuar sobrevivendo às circunstâncias que nos afligem, o que não retira dele a imensa expressão de generosidade. Afinal, o valor cobrado é uma bagatela que qualquer um pode pagar sem que lhe falte algum para a cerveja. Imaginem os moradores de um condomínio inteiro.

            Explicado tudo bem explicadinho, devo dizer que me emocionei com um vídeo onde está o Kreo, vestido a caráter, com seu violão nos braços, como se fosse a amada sendo acarinhada com um leve dedilhado, caixa de som e microfone na calçada, as luzes acesas dos apartamentos e ele cantando como se estivesse fazendo do ato de encantar a sua própria declaração de princípios.

            Ele canta uma balada moderna e todos os expectadores, dos dois lados da rua, em diversos edifícios, cantam em uníssono e batem palmas ritmadas. Isso me força a lembrar que Marília nasceu sob o signo da poesia em um tempo em que ainda se faziam serenatas. Essa mesma cidade, agora embrutecida pelo crescimento econômico, em tempos de isolamento e distanciamento social revive, ainda que por força da conjuntura momentânea, assim esperamos, um tempo que poderíamos dizer que se foi, mas que está bem aí, fazendo parte do seu cotidiano.

Sinto, ainda que de longe, que nas cordas do violão do meu amigo a cidade (ou parte dela) se encontra consigo mesma, se diluindo em ares telúricos e se construindo, pois toda vez que olhamos para o passado edificamos o futuro dentro do tempo, em uma espécie de périplo que promove um reencontro com o que há de mais valioso dentro do Ser e da sociedade, o sentido ecumênico da vida, pois viver em sociedade, ou estar no mundo, nada mais é que um exercício universal de tolerância e boa vontade. Entendo que fora disso não há civilização possível. Ingênuo!, dirão alguns. Pois que me deixem com a minha ingenuidade.

Mudando um pouco a perspectiva dessa croniquinha, devo dizer que em uma dessas voltas que a memória proporciona, lembro do Kreo fazendo mil e umas peripécias com a sua bike antes das aulas noturnas em frente ao velho Thomaz Antônio Gonzaga, que para a minha miséria afetiva não é mais o colégio onde me entendi como gente. Lembro também das badernas ao som da Epybatérios do Phyrgo, uma bandinha moderninha, da qual o Kreo fazia parte, nos idos dos anos 80 e que era a grande febre da juventude naquele momento. Agora ele faz serenata para afastar o tédio. Que legal!

Gustavo Felicíssimo é escritor e fundador da Editora da Mondrongo.

É autor do livro de poesia “Blues Para Marília” e vive desde 1993 na Bahia, onde nasceram suas duas filhas.

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