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Reinaugurando o Teatro de Marília

“Tá cada vez mais down no high society”, acompanhado de uma estrofe da cantora Rita Lee, da canção “Alô Marciano”, inicio a coluna desta semana para retratar o que foi o final de semana cultural que marcou a reinauguração do Teatro “Waldir Silveira Mello” em Marília.
Está mais que certo que seis anos de espera causaram a comoção pública, muitas pessoas ficaram entusiasmadas com a possibilidade de estar, novamente, no teatro que foi inaugurado em 1982, segundo a Comissão de Registros Históricos da Câmara de Marília.

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O Teatro é um espaço de história, de memoria coletiva, muitas situações aconteceram somente lá. Foi um lugar de Insights (um momento de perspicácia, quando uma pessoa compreende um fato que, até pode parecer óbvio, mas permanecia no subconsciente), onde muitas decisões foram tomadas, através dos impulsos artísticos, quase elétricos, de peças que passaram pelo palco do teatro.
Entrevistei na reinauguração, no último dia 9, uma senhora que estava a espreita do espetáculo pomposo, a dona Licia José dos Passos, de 64 anos. Ela estava quietinha, pelo frio daquela quinta-feira e também pela origem humilde que parecia vir.
Com um vestido de bolinha, talvez costurado por ela mesma com o tecido comprado em uma loja qualquer da rua São Luiz, a senhora esperava ansiosa pelo início da apresentação da banda Sinfônica da PM (Policia Militar).
Até que foi atrapalhada por um pseudo repórter, com uma postura intimidadora, pois saquei o gravador e perguntei se ela poderia me dar uma entrevista. “Eu? Mas o que é que eu teria para dizer?”, respondeu dona Licia, com um sorriso afirmativo.

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Questionei se ela tinha alguma memória do teatro antes da cerimonia de reinauguração. Dona Licia me contou que já havia se apresentado lá. “Eu participava de um coral de uma paróquia de Marília. Tive o prazer de me apresentar pelo menos duas vezes aqui, foi um barato, isso me marcou muito”, disse.
Quando desliguei o gravador e iria me despedindo, ela começou a contar outras histórias, talvez tenha ficado desinibida com o gravador desligado. “Aqui também foi o onde eu fiz muitos amigos, inclusive meu falecido marido eu conheci aqui. Quero que outras pessoas possam participar daqui como eu participei e sentir tantos sentimentos quanto eu senti”, revelou a senhora.
Dona Licia olhou para a amiga, que aparentava ter a mesma idade ou poucos anos a mais, e perguntou: “e aí, eu falei bem?”. A outra senhora acenou positivamente com a cabeça e ofereceu um pouco de pipoca, enquanto eu estava ali, deslocado, com a situação encantadora que marcou a minha noite.
Enquanto isso, a maioria do público, constituídos de funcionários públicos e empresários, junto com seus familiares, continuava em pé à espera dos flashs de fotógrafos e perguntas pragmáticas vindo de jornalistas pautados pelos chefes de redação no saguão Ramis Pedro do Teatro. Senhoras da mesma idade de Dona Licia seguiam com seus scarpins e casacos de pele, como em uma cerimonia da idade média, no Palácio de Versalhes. Digna do exibicionismo do rei absolutista Luis XIV de Bourbon, conhecido pela ostentação no período em que a França esteve vivênciado uma crise política e financeira, em 1638.

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Depois de ir ao cabeleireiro, no esteticista e, quem sabe, malhar o dia inteiro, as senhoras esperavam que, no mínimo, tivessem suas fotos estampadas nas páginas de coluna social de jornais locais. Pelo o que acompanhei, nada aconteceu. Eu imagino que seja constrangedor tentar chamar atenção, através da estética, em um espaço onde historicamente a cultura prevalece.
Mas isso não me abalou, pois agora, toda vez que eu for ao teatro, vou esperar encontrar por outras Donas Liciais. Gente da minha gente! A reinauguração do Teatro de Marília é um marco para a cidade e a população fez uma festa que quase ninguém ouviu. Os peitos pulsaram tanto que quando notaram, perceberam que era dia de festa nos corações.

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