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Velha Guarda da Mangueira, História de Resistência

Em uma breve passagem pela Virada Cultural Paulista, a Velha Guarda da Mangueira se apresentou no  dia 22 de maio para quase duas mil pessoas, na região central de Marília. Mesmo com o tempo nebuloso e frio, os marilienses foram às ruas para prestigiar os baluartes da bateria carioca.

A apresentação durou quase duas horas e fez com o que o público se encantasse com canções que, em essência, são também a tradição da Estação Primeira de Mangueira. O No Nosso Quintal aproveitou a oportunidade para entrevistar três figuras centrais na construção e manutenção da escola de samba, Tantinho e Rodi da Mangueira e Guezinha (filha de Dona Neuma).

Os baluartes falaram sobre o contexto da ascensão do samba no país e a apropriação cultural promovida pelo mercado americano.  Também foi tratado sobre o fechamento do MinC (Ministério da Cultura) pelo presidente interino Michel Temer (PMDB) e como os artistas estão se mobilizando para reverter o retrocesso sociocultural.

PING-PONG

NNQ: O samba, a capoeira e demais manifestações afro-brasileiras ganharam o mundo, Europa, Ásia e América do Norte respeitam e consideram o samba, porém, por que isso não acontece tão fortemente no Brasil?

RODI: Foi Tom Jobim que abriu as portas para que o mundo pudesse ouvir nosso samba. Tá nos Estados Unidos, em Londres, em Berlim, várias escolas de samba e então, há uma época atual em que o samba atravessou fronteira, o samba que já foi tão marginalizado. Hoje, graças à Deus, o samba consegue um espaço dentro do conceito mundial, dentro da música. Infelizmente, entre nós, brasileiros, o pessoal gosta muito de americanizar as nossas coisas, mas, aqui não tem Tio Sam, aqui tem Tantinho, tem Rodi, tem Guezinha, tudo dentro do samba.

NNQ: Como é a relação de vocês com a comunidade? Como a comunidade vê vocês? Como os jovens veem vocês?

GUEZINHA: Eles veem a gente com muito respeito e esperando, tendo fé que vão chegar também na nossa idade. Esperam chegar a ser da velha guarda, porque é um prazer, é um prestígio porque nós fomos criança, fizemos parte da mangueira infantil e hoje somos da velha guarda, baluartes, é um prestígio, não é? Não tem melhor do que isso!

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Baluarte Guezinha da Mangueira acompanhou a bateria e soltou a voz para o público mariliense (Foto: Brunno Alexandre)

NNQ: O que vocês acham do fechamento do MinC?

TANTINHO: Eu sou funcionário da Funarte (Fundação Nacional de Artes). Para mim é uma tragédia. O ministério da cultura já é ignorado, os governantes não dão tanta relevância, exatamente como é a situação da cultura no Brasil. O MinC deveria ser o primeiro ministério, mas de toda aquela extensão de Brasília, é o último.  É o menos valorizado, o que tem menos verba. O Minc ainda existe porque tem Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia, senão já tinha acabado. O Caetano Veloso já foi para lá gritar assim que mexeram no ministério, já se reuniram para gritar em favor do Minc. Se não tem esses artistas de expressão, o Minc já tinha acabado.

Em relação a cultura, no Brasil? Não vê o que fazem aí com a cultura? Cultura no Brasil, desculpe a expressão, é uma sacanagem, entendeu? É para quem tem interesse de entrar e se dar bem, eu sou funcionário de lá, eu sei como é que é. Entra um, sai outro, daí entra um amigo ou o cara vai buscar o amigo e bota como presidente da Funarte.  É uma pouca vergonha aquilo.

O samba corre junto, o samba corre paralelo, da mesma maneira que a cultura, é ignorado. Eu acho que o samba é como o negro, sacaneiam um pouco o negro porque tem um pouco de medo. Tem quem tem um pouco de medo, não quer valorizar para não dar espaço, terreno pro cara, né? Progredir. E o samba também… mais do que fazem para barrar o samba e o samba chegou, não tem jeito, chegou. Hoje eu vivo do samba, sustentei minha família com o samba, paguei faculdade dos meus filhos com o samba, eu não fiz a faculdade, mas, eles fizeram.

Hoje o que garante o sustento da minha família é o samba. O salário que eu ganho do governo não dá para sustentar minha família com dignidade, mas, o samba vem e complementa. Graças a Deus eu sei alguma coisa.

O negócio é lutar, não adianta a gente reclamar e falar mal, o negócio é lutar. O Robson tá aí de prova, falei pro Rodi, pouco tempo atrás sobre a Velha Guarda da Mangueira, a nossa velha guarda, eu falei: ‘Você vai ver onde vai parar essa velha guarda, olha como a velha guarda tá, tá melhorando cada vez mais. Cada vez mais expressiva, muito mais respeitada dentro da comunidade’.

Mas aí já tem cara querendo brigar com a gente, tomar a velha guarda, não adianta, aqui não vai armar nada, a gente dentro da escola é forte. A gente é forte dentro da escola para impedir. Para atrapalhar vai sempre aparecer alguém, agora, é você ir passando por cima, é trabalhar, trabalhar, trabalhar. Eu falo até pros jovens, experiência de vida é o que nós temos, então  trabalha, deixa falarem, deixa… Trabalha que chega. Enquanto falam, você chegou.

Baluarte Tantinho da Mangueira em apresentação pela Virada Cultural de Marília

Baluarte Tantinho da Mangueira apresentou os clássicos da escola de samba pela Virada Cultural de Marília (Foto: Brunno Alexandre)

Ao lado de Tantinho, Guezinha interrompeu a entrevista e gritou: “Samba é cultura! Temos que lutar pelo samba!”, afirmou. Todas as dúvidas haviam sido sanadas, a honra de entrevistar esses senhores não cabe na entrevista, no mais, após a bênção, saímos felizes por termos raízes brasileiras tão ativas na música.

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