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O Fracassado

Eu posso não ser a melhor pessoa, sim, tento reconhecer minhas limitações. Foram muitos erros. De diferentes maneiras busquei me tornar alguém maior do que antes. Superando a tragédia. Fugindo da vaidade. Afugentando o orgulho.
Fui submetido a outros sentimentos, surgiram novos caminhos, com diferentes possibilidades. O erro comum entre as novidades foi a expectativa do desejo em ser acometido por uma euforia descabida.
Acabei preso em um manual que retrata a vida como um ornamento inútil, repleto de adjetivos pomposos e boas etiquetas. Construí uma armadura usando sonhos e sorrisos. Mas para suportar o peso, usei esperança como fantasia para que, se for preciso, recomeçar.
Diante tantos recomeços, questionei o método: o que seria responsável por tanta amargura? Nenhuma das respostas era suficiente. Existe algo de errado que continua me atormentando. Dúvidas são marteladas incessantemente em minha cabeça. E a mocidade se esvai, levando consigo toda a serenidade que a paciência poderia um dia me proporcionar.
Agora eu preciso de remédios para dormir e levantar. Toda aquela situação denunciava que em um futuro próximo eu não teria mais forças para o recomeço. Francamente, naquele estado eu não poderia calcular todo o estrago que a desilusão me proporcionou.
Toda aquela situação não poderia ser verdade. Parecia que sem nenhum julgamento fui condenado pela vida. Por mais modesto o sonho, nunca consegui realizar nada. Penso constantemente sobre o porquê de ser tão contrariado. Será coisa de santo desordeiro ou heresia minha em alguma vida passada?
Por Deus, antes estava tudo bem. Eu não sei o que se perdeu no caminho. Tento vasculhar em minha memória o tempo e o espaço em que fui derrotado. A reflexão é dolorosa. Lembranças fantasmagóricas de uma pessoa que não sou eu me veem constantemente.
O que aconteceu? Quem me tornei? Teria eu cultivado em mim um reflexo que não me pertencia?! Poderia ser. E seria o mais provável. Como puder errar dessa forma? Encenar personagens durante toda a vida, debochando da falta de sorte ou azar. Não, as coisas não poderiam ser assim, tão sérias. Teria que existir uma forma de recomeçar.

9h37

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A luz do sol refletia diretamente em seus olhos. O calor fez com que ele acordasse. Seu corpo estava todo queimado. A sombra daquela árvore se desfez horas atrás. E não sabia ao certo como terminou ali, naquela calçada.
Lembrava que exagerou na bebida. E em um esforço inútil tentou lembrar o que tomou. Era uma das piores ressacadas de sua vida. No entanto, tinha 26 anos. Ainda era novo e estava acostumado com o baque. Aos poucos ele se recuperava, recobrando parte da memória.
Seu corpo estava dolorido, principalmente as costas. Mas isso não era o que mais incomodava. No decorrer do dia, quando decidiu tomar outros goles para encerrar o dia, lembrou o que sonhou. Ele tinha envelhecido e se tornado algo que abominava, um velho escroto. Aceitava sua mediocridade. Sempre acordava desesperado, lembrando de frases racistas proferidas durante o sonho.
Sorriu de uma forma debochada, acompanhado de mais um gole na bebida. Estava mais uma vez naquele bar, era o terceiro dia seguido. O ambiente era hostil. Muitas pessoas falando sobre coisas que não o interessavam. Mas com o tempo ele ficou familiarizado com o lugar.
O sonho com aquele velho o atormentou por mais vezes. E ele nunca se esquecia do que sonhara. Inclusive, recordava com todos os detalhes. Era estranho como outros sonhos se perdiam, mas aquele permanecia. Foram tantas pesadelos que ele se adaptou, já estava acostumado.

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