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Rashid e a ascensão do Rap

Em uma passagem pela Virada Cultural de Marília, a equipe do No Nosso Quintal entrevistou o rapper Rashid, que se apresentou no dia 22 de maio para quase mil pessoas no palco externo, na avenida Sampaio Vidal.

Rashid evidenciou a cena do hip hop nacional, mencionando figuras como Criolo, Rael e Daniel Ganjman. O rapper também falou sobre o posicionamento político de Michel Temmer (PMDB), com o anuncio do fechamento do Ministério da Cultura e Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos.

Michel Dias Costa, o Rashid, de 28 anos, é uma mistura de cultura de periferia com conexão global, o músico faz parte da nova geração do rap nacional que avança em qualidade estética e mantém as mensagens críticas voltadas aos marginalizados da sociedade brasileira.

Em Marília, rapper se apresentou para uma multidão expressiva de jovens e adolescentes que conheciam suas letras e fizeram fila para vê-lo depois do show.

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Rashid em apresentação do seu disco “A Coragem da Luz” que reuniu pelo menos 1 mil pessoas na Virada Cultural de Marília (Foto: Brunno Alexandre)

NNQ: Em suas letras você contesta muitas questões sociais, inclusive homofobia, situação da periferia, situação da mulher e queremos saber: o que você acha do fechamento do Ministério da Cultura e do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos?

RASHID: Na real, é o grande retrocesso mesmo, acho que não tem outra forma de definir isso a não ser com a palavra retrocesso. Foi muita luta para se conseguir que essas questões fossem olhadas dessa maneira mais sensível, tá ligado? É necessário que haja um cuidado especial com a mulher, com a juventude, com os negros. É necessário que haja o Direitos humanos para que cuidem de outras questões que ainda não têm seus próprios ministérios também, ainda né, o ainda tem que ser a ponte para isso. Não tem que ser a parada com validade ou contagem regressiva para acabar. Então esses ministérios serem extintos é um grande passo pra trás.

Você liga a TV, abre um jornal, abre uma revista de notícia, vê lá casos de dez manos que agrediram um gay na avenida Paulista, isso é terrível! Ou aí você vê o caso de não sei mais quantas pessoas que agrediram e mataram um moleque preto em algum lugar, ou violência doméstica contra mulher. É uma estupidez tremenda essas coisas acabarem e a gente achar normal. Lógico que não! É claro que partindo de mim, uma pessoa do rap, com perspectiva de dentro de uma música contestadora, uma perspectiva periférica e preta da coisa, é lógico que é natural isso partindo de mim.

Sobre o Ministério da Cultura, é outro fato triste, ele ser fechado. Só que eu sinto que os políticos, o sistema brasileiro, de certa forma o povo, porque o povo acaba refletindo um pouco o que o sistema é, enxergam a cultura como uma parada supérflua. Mas, a cultura emprega, a cultura resgata, a cultura informa, a cultura inclui. A cultura faz tudo isso e como você pode dar moral para um cara que fala que agora os artistas vão ter que trabalhar? Mano, desculpa aí, eu nunca precisei de nada do Minc, mas, eu sei que é um avanço ele acontecer.

NNQ: Acompanhando a história do rap nacional, a gente via mais os quatro elementos do rap (MC, B-boy, DJ e Grafite) e, no caso do palco, o MC e o DJ, principalmente. Hoje em dia vemos o instrumental e outros recursos. O que você acha que acrescenta? Os músicos fazem parte do seu processo de composição?

RASHID: Eu vejo a questão de trazer uma banda pro palco, para um show de rap, como uma evolução pessoal, não significa que para o rap evoluir precisa ter banda. Mas continuo fazendo show com DJ e tenho esse show com banda porque acho que traz outras coisas, é um show diferente. A gente já rodou tantos lugares com o show, eu e o DJ, somente e as pessoas viram tantas vezes, então você tem a oportunidade de levar alguma coisa nova: um disco novo (A Coragem da Luz, lançado neste ano) e um tipo de show diferente, com mais pessoas, mais instrumentos, outro tipo de emoção, sabe?

Tem um momento ali que o guitarrista sai para fazer o solo dele, acho que isso traz outra emoção e de certa forma educa o público a olhar pro instrumental. Vai olhar pro samba, pro jazz, pro rock, com outros olhos, vai falar: “mano, isso tudo cabe dentro daquilo que eu sempre curti e não sabia que cabia, e a parada tá casada ali”.  Então é parte disso, uma apresentação, você apresenta novas possibilidade para o público, para outros artistas que estão, de repente, assistindo também e faz parte do que acredito ser uma evolução pessoal.

Não que abandonei o beat, até porque o beat tá ali né, algumas músicas têm até o beat 100% ali, a banda toca por cima. É realmente para acrescentar, fazer a parada engordar, crescer de certa forma, trazer uma vida diferente. E a gente sempre teve umas bandas meio icônicas no rap mundial, tipo The Roots.

O Questlove é o cara porque é baterista de uma banda de rap e se tornou uma grande referência, dá aula na faculdade! Existe aquela lenda de o baterista ser um personagem secundário na banda, já ele é o baterista de uma banda de rap que é um estilo totalmente marginalizado e se tornou um dos principais nomes da música norte-americana em termos de produção, isso é bem louco. E eu não vejo a hora disso acontecer no Brasil também. Porque há vários músicos “monstrão” aí, tipo Daniel Ganjaman, conhecido por isso. Todos os caras que tocam na minha banda poderiam passar muito conhecimento adiante porque todos são muito bons. A banda eu garanto, o Rashid mais ou menos (risos).

Eles não fazem parte do meu processo de composição, a maioria das coisas eu faço sozinho, levo as ideias ou peço ideias pra eles, eles me apresentam coisas e eu vou, me fecho lá no meu mundo lá e volto com alguma coisa meio semi-pronta pra gente trabalhar em cima. Geralmente, gosto de ter a ideia inicial sozinho, depois a gente faz o resto porque eu acredito que sim, os caras podem acrescentar, eles têm o conhecimento musical maior que o meu, daí poderão acrescentar coisas na minha música que eu não conseguiria sozinho.

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O rapper saudou por diversas vezes seu ídolo, Sabotage, uma das principais influências do rap na carreira do mineiros (Foto: Lucinéia Manfredinni)

 

NNQ: Em uma entrevista sua você afirmou que era um desafio cantar, porque você não acreditava ser um cantor, como compreende isso? Em relação a crítica a outras MCs, como Projeto e Emicida, por parte de fãs devido a aparições na mídia, como entende esse movimento?

RASHID: A parada de aprender a cantar faz parte dessa evolução pessoal, tanto quanto a parada da banda, é uma coisa que acredito que vai somar na minha carreira mesmo, sabe? Minha parada é a rima, eu amo rimar, o que eu sei fazer é rimar, me dedico muito pra isso, tá ligado? E eu acredito que eu aprender a cantar vai somar muito pra que eu possa fazer os refrãos melhores, vai somar na hora da rima também, às vezes a rima com melodia, assim como várias pessoas já fazem, o próprio Criolo faz isso bem pra caramba, Rael, faz isso. São grandes referências e na gringa muitos fazem isso. Tipo Kendrick Lamar, canta e rima, Kanye West não canta tão bem, mete uns autotune, mas, põe a melodia e manda rima também. Então acho que é parte de uma busca artística mesmo, não quer dizer que você vai mudar de caminho. Eu me inspiro muito nos caras que não param no tempo, tão sempre buscando uma parada maior musicalmente, não necessariamente de crescimento, de ser mais famoso, mas de crescimento artístico mesmo, se tornar melhor naquilo que faz, então eu acho que essas coisas fazem parte desse caminho do Rashid.

Eu acho que algumas pessoas criticam o rap quando o rap vai na mídia, vai na globo, sei lá, porque considera que a programação é uma merda, sei que lá.  Mas eu acredito piamente que a gente tem uma possiblidade de transformar a programação num pouco menos merda se a gente for lá, tá ligado? Primeira vez que eu vi o Sabotage cantar foi na televisão, na Bandeirantes, se não fosse aquela vez eu nunca teria visto ele cantar. Eu morava no interior de Minas e vi ele lá e fiquei tipo, mano, estacionei na frente da TV e fiquei de cara, fiquei em choque. Então acredito que isso foi uma coisa boa pra mim. A gente tem acesso a muita coisa, só que às vezes esquece que o irmão tá lá no interior, na roça e ele só tem acesso à partir daquilo e só vai chegar pra ele se for daquele jeito. Então acho que a partir do momento que é legítimo, você é você, do jeito que você tá aqui, você vai estar lá.

Você vai fazer a mãe do moleque que vai num show de rap toda semana super preocupada ver o artista lá. E vai pensar: entendi, o cara é da hora, tem umas ideias da hora, é inteligente, o cara não é bandido igual a gente pensa que é, é gente da gente. Daí ela fala: “pode ir lá meu filho, tranquilo no show de rap que agora eu vi como as coisas são. “

Não julgo quem não gosta. É questão de opinião, acho que a gente pode usar as ferramentas que a gente tem… os caras sempre usaram a gente mano, vamos usar os caras um pouquinho também para levar nossa mensagem.

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