Arte, Cultura, Entretenimento e Informação

Amendoeira e Madraço

– Alô?
– Gostaria de falar com o seu Madraço por favor ?
– Amigão, desculpe mas o senhor madraço já faleceu.
-Ah já ? O senhor é parente dele senhor ? Meus sentimentos.
– Fique tranquilo querido, está tudo bem. Agora preciso ir.
Sr Madraço desliga o telefone desfazendo aquela expressão de cortesia e gentileza. Volta a face acinzentada e gorducha que lhe é peculiar.
– Malditos telefones. Malditos carteiros e cobradores.
Assim disse já vermelho sr madraço. Abriu sua imensa janela branca. Digo janela por força do próprio costume do sr madraço. Aquilo sempre me pareceu muito mais uma porta.
– Porfírio, você está em casa ? Porfírio ?
– Estou sim sr.
Eu disse isso e corri até a sala botânica preferida do chefe.
– Porfírio hoje quero lhe apresentar algo realmente diferente e precioso. Isso aqui me lembra aquelas festas pomposas na casa do velho Jarbas. Um pianista de jazz que andou aqui pelo rio nos idos do inicio do milênio.
– E o que seria senhor ?
Depois da minha pergunta aquele senhor de sapato, calça e camisa branca, gordo e alto esticou seu suspensório creme dos tempos que ainda era chamado de Doutor Madraço. Depois de se esticar aproveitou uma brisa gelada com cheiro de chuva que entrou na sala aberta onde o preguiçoso cuidava de todas as suas 100 plantas. As verdinhas do seu madraço. Verdinhas que eram cultivadas tão bem quanto as do bolso.
Respirou fundo entrou na sala ao lado e abriu uma das várias portinholas de uma espécie de armário antigo, madeira-de-lei. Dentro do móvel tirou um disco de música. E foi logo retirando de sua capinha branca e verde.
Havia uma espécie de folha esverdeada contra o sol num fundo branco e aquela sensação já foi logo me dando alguma paz que o próprio senhor madraço não me dava nas horas de serviço comum.
De maneira nenhuma quero aqui passar a impressão que o senhor madraço era uma ótima pessoa. Ele era um patrão como qualquer outro, extrairia até a ultima gota do meu trabalho. Ou melhor, se tempo de trabalho é tempo de vida, extrairia até a ultima gota do meu tempo de vida para fazer aquilo que sua preguiça não lhe permitia.
Absolutamente do nada algo lhe acontecia, um vento bom depois de um banho longo ou qualquer coisa assim e esse mesmo vil madraço ficava mansinho, saudoso, conversador e cheio de 9 horas.
Eu era pago para me fuder atrás de tudo 24 horas para aquele filho da puta, então não recusaria sentar em seu sofá acolchoado e ouvir qualquer bobeira. Às vezes até cervejinha gelada me servia. E nesse dia foi dessa maneira. Ele olhou para mim com o disco começando a rodar num equipamento antigo mais absolutamente conservado. Eu olhei para ele e para o aparelho. Lembrei de ter passado a flanela mais de 10 mil vezes naquele sony velho. Com essas mesmas mãos negras que trago junto aos braços mantive durante anos tudo na mais absoluta ordem e limpeza. Quem diria que eu mesmo haveria de sujar tudo aquilo ?
– Este disco não poderia ser chamado de raro porfírio. Ele deve ser chamado de único. Acredite se quiser.
Dichavou um pouco de uma maconha que um holandês lhe trazia todo mês. A fumaça brilhando no raio de sol e um samba-jazz leve começava a tocar gentilmente em nossos ouvidos.
Eu sorri de verdade. E foi o único sorriso que dei porque quis em 25 anos de trabalho naquela casa.
– É verdade senhor ? Como assim único ?
– Sim meu jovem amigo, esse álbum foi gravado há exatos quatorze anos, no ano de 2002. Se chama Amendoeira e é de um músico e compositor fabuloso que é tio daquele tal de Marcelo Camelo. O seu nome é Bebeto Castilho.
Agradeci a Deus quando ele se calou por um minuto. Comecei a ouvir o som da voz grave e delicada daquele maravilhoso cantor.

 

                                                       “Amendoeira, à beira da janela

                                                       É ela quem olha por mim

                                                       Fora nas folhas derradeiras mágoas

                                                       Das primeiras horas

                                                       Galhos rasos d’água”

A próxima parte da história eu vou me permitir ocultar detalhes. Plantas pingando vermelho, sorriso e olhos vermelhos parados me olhando. Roupa branca toda tingida de vermelho formava quase um quadro dessa tal de arte pós-moderna no corpo grande de madraço e que combinava bem com o tom leve das canções. Coloquei a 500 S&W Magnum na mão do patrão “confortavelmente” deitado e indolente no sofá.

                                                “Fosse ainda coisa passageira essa tristeza
                                                 Feito assim um peso que se leva sem notar
                                                 Fosse assim um peso verdadeiro
                                                 Fosse inteira eu carregava, Amendoeira
                                                 De certeira eu carregava”
Peguei o disco com todo cuidado, guardei na capinha branca e verde. Coloquei na mochila junto com alguns salgados e doces da festa do dia anterior e um saco daquela maconha holandesa que ele guardava. Saí do local e fui para casa chorando.
Eu não sou assassino nem muito menos bandido. Mas sou gente, e paciência tem limites. Aguentei mais do que muitos aguentariam. Nenhuma corda tensionada suporta para sempre. Eu só me adiantei e lhe devolvi um pouco de música no estampido de sua própria “ferramenta”.
Limpei as lágrimas com um sorriso no rosto respirei fundo embaixo de uma enorme amendoeira que havia crescido desordeiramente em frente de minha casa. Entrei. Beijei com amor minha patroa, fiz um daquele europeu e jantei uma canjiquinha com costelinha que fizemos a quatro mãos. Bebemos cerveja gelada. Dei um docinho roxo e branco da festa para minha minha nega. Coloquei o disco e adormeci na rede ao lado dela.

                                                   “Cabe essa tristeza companheira de janela
                                                     Deixa que, com ela, a gente fica à vontade
                                                     Cabe nos seus galhos o meu peso
                                                     Que beleza, Amendoeira
                                                     A certeza de ser triste do teu lado”

O disco acabou e a casinha de periferia mergulhou num silêncio profundo que só fora interrompido pelo cantar bonito dos passarinhos da primeira manhã.

Link do YouTube com a canção Amendoeira – Bebeto Castilho lançado em 2002:

 

Samuel Hernandez – 29/11/2016 – 04:33

Imprimir

Comentários