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Não há castigo

Não há helicóptero, o cerco começa pela mata, são carros comuns e homens à paisana pelo asfalto, com pontos no ouvido e pistolas. Lá dentro, dois irmãos. O rapaz do samba no Bar do Batuque cozinhava um ovo e revisava, na memória, aquela do Donga com o Noel:

“Desta vez não há castigo

Se vais à Penha comigo

Tu tens que me dar vantagem (…)”

Seu irmão mais velho dormia o sono apagado de quem chapou demais, estirado no sofá da casa do rapaz do samba porque estava sem condições de subir a escadaria. Bateu à porta lá pelas três da manhã e foi carregado para a sala, ali estava até então.

Com muita calma, o músico puxou seu violão ensacado e os cadernos da molecada do Projeto. Às nove, toda terça, era sua aula, voluntária, “da comunidade pra comunidade”, como dizia o vereador que nunca aparecera ali.

O sol que flameja o Rio ameaçava fritar a perna à deriva na sala, mas, o músico fechou a janela pro irmão ficar mais à vontade, não quis acordá-lo.

“Quero ver se tens coragem

De subir a escadaria (…)”

Começaram a subir de forma dispersa, fingindo ar de turista, de quem não quer nada, de proprietário a cobrar o aluguel. Àquela hora a maioria já havia tomado a condução pro trabalho, mas, muitos ainda desciam e desconfiaram. Um deles, assentador, resolveu ligar pro filho quando entrou no ônibus. Enquanto isso, da mata já se tinha visão ampla do morro caso alguém fugisse. A ordem era bala: se fosse bandido importante, que atirassem no joelho, pro resto, disparo no peito, que é mais fácil.

Cercaram o sobrado e invadiram as casas ao redor igual assalto, sabe? Quietos, pra pegar de surpresa. Dois deles entraram e, antes de tentarem render, começou a saraivada de bala pra lá e pra cá que fez o músico, lotes abaixo do local, querer adiar a aula. Começou a trancar a casa que um dia foi de seus pais, quando batem à porta.

– Quem é?

– O Morcego, abre porra!

O adolescente entrou correndo e começou a acordar o rapaz no sofá.

– A casa caiu, ‘tão’ atrás de tu, ‘mermão, rala daqui’!

– ‘Tá de caô’? – perguntou o chefe do tráfico, assustado e sentindo ressaca.

– Cadê o Dinei? – perguntou o policial ao homem baleado no sobrado, lotes acima.

– Sei não, senhor. – cuspiu sangue.

– Vê se teve fuga… e desce o Silveira pro hospital– disse o interrogador a outro p.m.

Teco subiu correndo com o fuzil nas mãos, ia saltar na mata e lá ficar até a poeira abaixar. Tomou quatro tiros que rasgaram a camiseta do Real Madrid e prostraram o adolescente pra trás numa posição tão retorcida que, por si só, evidenciava a morte.

O rapaz do samba começou a se desesperar, o irmão e Morcego planejavam fuga. De repente, silêncio.

– ‘Tão’ descendo.

A cabeça do músico, numa tentativa de distrair a tremedeira, repetia a sequência “Sol menor com sétima, Dó menor com sétima, Ré com sétima, Sol menor com sétima(…)”

“Vais pagar minha passagem

Carregar minha bagagem(…)”

Lá dentro, três em silêncio, dois de arma em punho, um com o violão nas costas.

“Oi, quero ver se tens coragem

De subir a escadaria

Eu sei bem que tu não gostas(…)”

Um ruído vem do telhado, o ovo cozido está frio e na casca. Pensou na justiça, o irmão iria preso, mas, nada aconteceria com consigo, o advogado da ONG faria sua defesa, era trabalhador, músico da noite no asfalto, inclusive tocava cavaco no Bar do Batuque, ali no morro mesmo, ‘dotô’.

Bateram à porta.

O irmão fez sinal de silêncio pro caçula.

“Mas juro que nesse dia

Vais me carregar nas costas”

Forçaram a porta e a janela do quarto.

“Oi, quero ver se tens coragem

Para pagares teus pecados

Pra ganhares o meu perdão(…)”

A porta se arrombou, Morcego disparou duas vezes, o cano de uma pistola aparece e da entrada atira às cegas, um homem com submetralhadora dispara da janela do quarto e acerta o adolescente no braço. Dinei grita:

– Perdi!

Solta a arma e ergue os braços, Morcego sangra no chão, o soldado entra pela janela e começa a descarregar sobre o chefe do tráfico e seu funcionário, as balas atravessam o sofá, os corpos, a televisão ou o vaso e se cravam na parede.

“Vais subir de olhos vendados

Não é mais que obrigação(…)”

O rapaz do samba está imóvel, sente um leve choque que toma o corpo e apaga, antes de tombar no chão, com um buraco de bala na testa.

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