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Mentiras que te contam sobre músicos da noite

Quando você chega no bar para encontrar os amigos, vasculha as mesas até mãos semi-embriagadas balançarem lhe chamando para sentar. Nessa olhada rápida, além dos demais se divertindo, você vê seguranças, garçons e uma ou mais pessoas tocando algum instrumento e cantando o repertório do dia ou do bar.

Pois é, este que escreve trabalhou em alguns momentos de sua vida como músico de bar. Toquei em dupla, trio e quarteto, em bar, restaurante, lanchonete, eventos, shopping (e piriri, pororó) em três cidades do interior paulista para tirar um trocado e ajudar a pagar o aluguel. Porém, toda vez que converso com alguém sobre esses momentos, várias mentiras e equívocos surgem. Listei alguns, acredito que o pessoal da música vai se identificar, mas, este texto se destina aos frequentadores de locais com som ao vivo, principalmente bares e restaurantes.

Ó só:

 

 “Isso não é trabalho”

Escolher repertório, montar banda, encontrar lugares para tocar, ensaiar cotidianamente sem tomar um tiro do vizinho, investir em instrumentos, cabos, pedestais, microfones, alças, cases, cordas, pratos, peles, pedais, pilhas, amplificadores, mesa, etc., carregar equipamento, montar (afinar, plugar, equalizar e passar o som), tocar horas seguidas, se virar para tocar as músicas que pedem no guardanapo, entreter o público e desmontar (desplugar, desligar, carregar). Se isso não é trabalho, minha gente, revejam o conceito.

 

“Vida de músico é fácil”

Quando você assiste a pessoa se divertindo com o próprio trabalho, não quer dizer que só aquele momento é o de trabalho, haja vista o parágrafo anterior. E, como diria um camarada das antigas: “tocar tem dessas coisas”, coisas essas que envolvem chamar atenção, ser performático e entreter. Não que música seja sinônimo de diversão, mas, naquele momento é.

Muitas vezes as musicistas e músicos nem estão se divertindo, apenas executando suas performances ou interpretações, nomeie como preferir.

E não é nada fácil conviver em banda (a maioria não é formada por amiguinhos adolescentes que caminham juntos o resto da vida), não é fácil aturar gerente ou dono de bar/restaurante enchendo o saco e muitas vezes te humilhando (como presenciei tocando em Marília, SP). Não é fácil aturar o bebum que acha que canta ou toca… por aí vai.

Se você acha essa vida fácil, tente a sorte.

Give Em The Boot Jason Gluskin

Give Em The Boot
Jason Gluskin

“Isso eu sei fazer”

Provavelmente você sabe tocar aquela cifra de acordes maiores, menores e com sétima, mas, aprendê-las (lê-se tocar exaustivamente até decorar), harmonizar em conjunto, planejar repertório, equalizar e depender disso financeiramente são outros quinhentos. Lembro de uma entrevista da Mallu Magalhães bem jovem dizendo que viu uns músicos tocarem e “sacou” que poderia fazer isso, porém, da “sacada” da garota ao sucesso, rolou muito esforço e grana investidos.

 

“Música ambiente”

Com todo respeito, odeio essa palavra. Música é para ser apreciada, não para ser deixada de canto. Não se trata de gravação executada em Spotify por meio de fones de ouvido, NÃO, aquilo é feito ao vivo e pra você que está no bar, respeite!

É tão chato quanto comum tocar horas a fio para pessoas que sequer olham de onde vem a música. E olha que vi gente espetacular ser ignorada completamente.

Quer música ambiente? Entre aqui:

elevador

 

“Só música cover”

Subestima-se artistas de bar por tocarem músicas famosas, estilos específicos ou mesclas de estilos, entretanto, será que é só isso que essas pessoas tocam? Você acha mesmo que as pessoas ligadas à música não compõem? Aliás, já se perguntou se o bar onde você assiste permite som autoral?

 

“Mas, ganham bem”

O álbum da Cristina Buarque (irmã do Chico) chama-se “Ganha-se pouco, mas, é divertido” e foi um mote em minha vida quando experimentei tocar pela primeira vez. Geralmente, o pessoal da música leva vida dupla, principalmente se a cidade paga mal os artistas, pra você ter uma ideia, toquei com professores, representante comercial, eletricista, auxiliar de mecânico, técnico de informática, estudante de veterinária…

O ganhar bem depende, primeiramente, de lei municipal. Se o município estabelece um piso para cachês, como é no Rio, tudo bem, porém, obviamente não é toda cidade que aprova leis desse naipe. Aliás, a cultura sub-existe no Brasil e há um abismo enorme entre os poucos famosos e os vários artistas brilhantes que estão por aí tendo a música como segunda função ou bico.

É claro que há profissionais da música em bares e restaurantes, mas, ainda assim, é possível que, durante o dia, sejam professores de música, vendedores de instrumentos, técnicos ou toquem em bandas com agenda considerável.

Po Man´s Blues Jason Gluskin

Po Man´s Blues
Jason Gluskin

 

“Deve ser divertido trabalhar bebendo”

Suponha que cada música possui uma média de dois a três minutos, se você prestar bastante atenção nas pessoas tocando, geralmente mãos, pés e/ou voz estão em exercício. Nos intervalos de segundos entre as músicas dá pra tomar um gole disso ou daquilo, porém, até lá, a cerveja esquenta ou o gelo derrete. Isso sem contar que, para cantores, melhor mesmo é água em temperatura ambiente.

Apesar de não ser consenso na classe, beber em serviço não rola.

 

“Um único estilo”

É comum pessoas que se consideram mais refinadas criticarem que em “barzinho” só se toca sertanejo universitário, pop, pop rock, MPB de churrascaria, sertanejo, pagode, etc. Mas, essas mesmas pessoas não chegam para os músicos e perguntam o que eles gostariam de tocar. Ao longo dessa vida, vi cantoras de jazz fazendo MPB, músicos de MPB tocando pop, violeiros virtuosos tocando sertanejo universitário, percussionistas de samba tocando pagode, metaleiro tocando pop rock, guitarrista solista de rock clássico tocando reggae… isso sem contar que a chance dessas pessoas serem professoras de música não é pouca. Então, respeite!

 

“O couvert é caro”

PRIMEIRO: são raras as cidades que pagam aos músicos o couvert e em Marília, SP, (salvo exceções), podemos chamar aquela taxa por pessoa que se paga no caixa de: mais-valia absoluta, lucro puro, roubo ou exploração, escolha como quiser.

O COUVERT NÃO VAI PARA OS MÚSICOS!

SEGUNDO: Os cachês das apresentações geralmente são fixos e divididos pelos integrantes. É costumeiro haver um valor de consumação ou a permissão de escolher algum produto do cardápio, que geralmente serve para alimentação.

TERCEIRO: Há músicos que são submetidos (ou se submetem) a tocar gratuitamente para “testar se a banda pega”.

 Exija que as musicistas e músicos recebam o couvert!

“Mas, vocês são assediados”

Sério? Das oito da noite à uma da manhã, com aquele baralho de playboy e patricinha bem vestidos, perfumados, jovens e radiantes, o baixista com a testa suando, calça jeans e camiseta sem estampa é o alvo?

Musicistas são assediadas, é óbvio, porque aquele bando de babaca bêbado metido a garanhão vai querer apostar na brecha do intervalo de quinze minutos pra dar ideia na artista.

Ou seja, a questão não é ser assediado ou não por tocar, mas, o assédio em si que é um problema, uma falta de educação agressiva e completamente diferente de um elogio ou uma aproximação amigável e respeitosa.

“Toca Raul”

Raul Seixas é legal, nada contra. Mas, ao ouvir tal frase, há artistas que pensam sinceramente em chacina.

As pessoas ensaiam pra tocar, logo, pedir música é legal, mas, estando elas fora do repertório, pode ser que também estejam fora da cabeça de quem toca. Recentemente o pessoal acessa de celular as cifras para tocar, mas, dependendo da música, a quantidade e complexidade dos acordes demandam treino, logo, se o pessoal não tocar aquilo que você escreveu no guardanapo e pediu pro garçom entregar, não é porque são cuzões, mas, porque pode ser que a música seja difícil, desconhecida ou você seja o verdadeiro cuzão.

Desculpe o tom do desabafo, mas, respeite a música, as artistas e os artistas!

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